quinta-feira, 31 de março de 2011

FALANDO DE AXÉ - EDIÇÃO 01

Gostaria de apresentar a vcs a Revista Online "Falando de Axé", que tratará sobre temas relacionados a Umbanda, Candomblé, Cultos Africanos e sobre a Cultura Negra de uma forma geral. Para todos aqueles que desejarem lê-la, é só acessar no link abaixo:

http://pt.scribd.com/doc/51950744/Falando-de-Axe-Ed-01-Mar-11

ÍNDICE

Ìsèse Àgbáyé – O Tradicional Culto Indígena Yorùbá Pág. 04
Candomblé - A importante herança religiosa Africana Pág. 07
Umbanda – Um Religião tipicamente brasileira Pág. 09
Olódùmarè - O Supremo que governa a Terra em seu esplendor Pág. 12
Òrìsà do Mês = Èsù, o Indulgente e Poderoso filho do Universo Pág. 14
Entrevista do Mês = Bàbá José Carlos de Ibùalámo fala de Axé Pág. 17
Folha do Mês = Pèrègún - O rei que desperta as divindades na Terra Pág. 20
O Carnaval = Aqui e na África Pág. 22
Livro do Mês = Òrun Àiyé - O Encontro de dois mundos Pág. 24

sexta-feira, 25 de março de 2011

Íyémówó e O Início do Ciclo Menstrual



"Alakedun procurou o intestino
O macaco achou o intestino
As maravilhas de aweremegun lhe fazem amarelar"
Foi feita adivinhação de Ifa para Iyemowo
A esposa de Obatala
Uma vez Obatala casado com Iyemowo, ela já não bebia água, mas
sangue, o sangue de animais
Ela bebia sangue fresco diariamente e ela se tornou uma mulher
poderosa.
Iyemowo desejava Ter assuntos para com seu marido
Ela consultou Ifa
O babalawo lhe disse para confiar em seu marido e acreditar nele
Ela não deveria suspeitar dos movimentos dele
Assim ela não perderia a sua vida quando estivesse investigando os
movimentos do seu marido
Ifa disse que ela teria filhos, e um sacrifício foi prescrito para
Iyemowo.
Obatala não tinha nenhuma arma, mas ele satisfazia todos os dias os
gostos de sua esposa com sangue fresco
Isso é o que fez a sua esposa suspeitar dele.
Considerando que Obatala sabia do que a sua esposa gostava, ele
consultou seu babalawo.
O babalawo preparou uma colher de madeira especial para ele.
Esta colher de madeira foi preparada com magia e sempre que ele
apontava a colher para um animal ela tirava o sangue de seu corpo. Era
com isso que Obatala ia buscar sangue fresco para ela todos os dias.
Mas, Iyemowo nada sabia desse segredo.
Um dia Iyemowo decidiu seguir o seu marido.
Ela sabia que Obatala tinha um saco que ele levava diariamente para a
floresta.
Ela cortou a bolsa no fundo e pôs cinzas dentro do saco.
Obatala, desavisado disto, levou a bolsa e foi para a floresta para
procurar animais.
Conforme Obatala ia, as cinzas caiam do saco e criava um rastro
Este era o rastro que Iyemowo seguiu para saber onde o marido dela ia.
Havia um local onde Obatala ficava e ia buscar sangue para a sua
esposa, assim que qualquer animal passasse.
Obatala ficou sentado pôr muito tempo, nenhum animal passou.
Isto era uma surpresa para ele.
Ele ouviu o som e algo vir em sua direção.
Ele apontou a colher de madeira na direção do barulho sem saber que
era a sua esposa.
Ela caiu imediatamente, e o sangue saiu da sua parte genital.
Obatala correu em direção do barulho, e teve uma grande surpresa ao
ver que era Iyemowo.
"O que quer você aqui ? Porque você me procura ?"
essas foram as palavras que saíram da boca de Obatala.
Ele levou-a para casa e chamou o seu babalawo.
O babalawo contou a Obatala o que Ifa tinha falado a Iyemowo
Ifa advertiu-a quando ela havia consultado Ifa
O babalawo lhe disse que oferecesse cinco adie para fazer sacrifício
Uma galinha deveria ser dada a Ifa a cada dia durante cinco dias
Quando isto terminou, o sangue deixou de vir das partes genitais dela.
Eles fizeram sexo, e Iyemowo engravidou.
Ela deu muitos filhos para Obatala
Desde então, toda mulher começou a ter um período ,menstrual todos
os meses.

quarta-feira, 23 de março de 2011

ABIKU - A = Nós; Bi = Nascer; Ku = Morrer



[Nós nascemos para morrer]
No Orun; um mundo paralelo que nos rodeia, onde vivem Deuses e Antepassados, palavra facilmente traduzível por Céu; mora um grupo de crianças chamado Egbe Orun Abiku - as crianças que nascem para morrer em curto espaço de tempo, gerando grande sofrimento para as suas famílias.
As meninas são chefiadas por Oloiko [chefe de grupo] e os meninos por Ìyájanjasa [a mãe que bate e corre].
A permanência dos Abiku ou Emere é condicionada a um pacto que fazem na vinda do Orun para o Aiye [a Terra] com Onibode Orun, o porteiro do Céu.
Este pacto é cumprido rigorosamente pelos Abiku, uma criança cujo acordo for não nascer, realmente não nascerá; outra que combine voltar quando romper seu primeiro dente, terá morte súbita, por acidente ou por doença, horas ou dias após o aparecimento deste dente.
Quando uma criança Abiku nasce, seu par, aquele seu companheiro mais chegado no Orun, começará a interferir em sua vida, atormentando-a, aparecendo-lhe em sonhos, a fim de que não se esqueça de seus amigos do Orun e rapidamente volte para eles, assim que houver cumprido o seu pacto.
Várias histórias de Abiku nos são relatadas nos Itan Ifá, pelos odú Odi, Obara, Ejiogbe, Irete-Irosun, Otura-Rete, Iwori-Wosa entre outros [ Tradição oral ].

IWORI-WOSA
O dia que uma criança dá o aviso que vai se suicidar
Não se pode permitir que sua intenção se concretize
Ifá foi consultado para Matanmi (não me engane)
Que estava vindo do Céu para a Terra
Ele foi avisado que deveria fazer sacrifício
O que devemos sacrificar para não sermos enganados pela Morte?
Carneiro
O que devemos sacrificar para não sermos enganados pela Doença?
Carneiro
EJIOGBE
O olho da agulha não goteja pus
No banheiro não se põe uma canoa a navegar
Ifá foi consultado para Òrúnmìlà
Quando ele fazia um pacto com Emere (Àbíkú)
Um pacto fora feito com Emere (Àbíkú)
Ele não iria morrer logo na flor da idade
O caso do Emere (Àbíkú) agora fica seguro com Ifá
A primeira vez que os Àbíkú vieram para a Terra foi em Awaiye, rei de Awaiye, num grupo de duzentos e oitenta, trazidos por Alawaiye, rei de Awaiye e chefe deles no Òrun. Na vinda para a Terra, todos pararam no portal do Céu e vários pactos foram feitos. Eles voltariam ao Òrun quando:
- Vissem pela primeira vez o rosto de sua mãe;
- Casassem;
- Completassem 7 dias de vida;
- Tivessem novo irmão;
- Construíssem uma casa;
- Começassem a andar.
E nenhum queria aceitar o amor de seus pais, e os presentes e mimos seriam insuficientes para retê-los na Terra, e talvez alguns absolutamente não nascessem.
Esta primeira leva de crianças Àbíkú combinaram entre si também roupas, rituais, chapéus e turbantes, tingidos de òsun que teriam valor simbólico de 1.400 búzios e que, se seus pais adivinhassem estas roupas e dessem-nas como oferendas, poderiam segurá-las na Terra.
As roupas seriam colocadas penduradas nas árvores do Bosque Sagrado dos Àbíkú, em Awaiye, e seus pais fariam anualmente uma festa, com tambores e cantigas, para alegrar os Àbíkú, que seriam untados com òsun, e não voltariam mais ao Òrun, rompendo assim o pacto feito, e seu vínculo com o Egbe Òrun Àbíkú.
Outras histórias são contadas por Òrúnmìlà sobre crianças que, depois de várias idas e vindas entre o Céu e a Terra, puderam ser conservadas vivas, devido a seus pais terem consultado Ifá e feito os Ebo determinados por Òrúnmìlà, trocando ou acrescentando um nome que os desanimassem de morrer novamente, usando folhas sagradas em fricções nos seus corpinhos, para afastar os outros companheiros Àbíkú, colocando em seus tornozelos Sawooro , fazendo em seus corpos pequenas incisões, e através delas inserindo pó preto e mágico de uma mistura de folhas, e com este mesmo pó enchendo um amuleto de couro em forma de pequeno saco, chamado Óndè que seria preso à cintura da criança.
Alguns Àbíkú também deveriam colocar em seus tornozelos pesadas argolas e correntes que não os deixariam fugir para o Òrun. As oferendas eram feitas como recomendavam os Itan Ifá - troncos de bananeira, cabras, galos, pombos, roupas e chapéus tingidos com òsun, alimentos, guizos, búzios, doces, bebidas, a serem entregues no Bosque Sagrado, ou enterrados à margem de um rio, ou soltas nas águas.
Estes Ebo possibilitariam aos pais reter seus filhos na Terra, e eles não morreriam mais.
Porém, se apesar das oferendas, os chefes das Comunidades Àbíkú, Oloiko e Iyajanjasa insistissem em vir à Terra em busca de suas crianças, e conseguissem levá-las de volta ao Òrun, os pais deveriam marcar seus corpos com cortes, ou mesmo mutilá-los ou queimá-los, para que seus pares no Òrun não os reconhecessem ou aceitassem de volta. Também pelas marcas seriam reconhecidas quando voltassem à Terra e não quereriam mais nascer.
Nas terras de ancestralidade Yorùbá, uma mãe que perde vários filhos antes ou depois do nascimento, por morte brusca, súbita ou inexplicável, procura um Bàbáláwo e descobre estar dando a luz a uma criança Àbíkú, que pode nascer e morrer inúmeras vezes impedindo-a também de ter filhos normais.
O Bàbáláwo indica a necessidade de Ebo, o uso de folhas, procedimentos estes usados para afastar o Àbíkú, se os filhos da mulher estiverem mortos, e para que ela possa gerar crianças perfeitas. Ou para reter a criança na Terra e romper seu vínculo com o Òrun, mantendo-a viva.
Até que a criança complete nove anos, sempre próximo à data do seu aniversário, determinadas oferendas serão feitas e depois repetidas até o Àbíkú completar dezenove anos.
A criança deverá usar roupas especiais, com enfeites e cores específicas, seu nome deve ser mudado ou a ele acrescentado outro, que desestimule sua volta ao Òrun.
Guizos em quantidade devem ser presos a seus brinquedos, roupas, tornozelos, pulso, pois o som dos guizos faz bem ao Àbíkú e afasta os amigos do Céu.
A fava Éerù, no Brasil chamada Bejerekun, deve ser usada em banhos e chás, pacificando a criança, Efun também pode ser utilizado para acalmá-la.
As folhas são usadas em fricções ou banhos, e com elas é feita a mistura mágica com a qual se protege a criança e se prepara o amuleto, que o Àbíkú carregará por toda a sua vida.
O corpo da mãe também deve ser defendido e esfregado com folhas, para que ela não atraia uma nova criança Àbíkú.
Se a mãe tiver também problemas com Egbe, chamada Eleeriko, uma deusa considerada o feminino de Egungun, que atormenta as crianças, marcando-lhes o corpo durante a noite, ela será avisada de que deve zelar por Egbe, entregando-lhe cabaças com oferendas no rio, e louvando-a a cada quinto dia. Também um altar com símbolos religiosos poderá ser instalado na casa, e anualmente serão feitas festas com sacrifícios de animais, tambores e dança.
Nem toda criança Àbíkú é atormentada por Egbe que também pode dar filhos às mães que a louvam.
Há alguns Orìkí de Egbe que demonstram bem esta ligação. Este que damos a seguir é de Ibadan, e é uma súplica para que Egbe envie crianças sadias que não sejam Àbíkú ou Emere.
Mãe, proteja-me, eu irei ao rio
Não permita Emere seguir-me em casa
Mãe proteja-me, eu irei ao rio
Não permita que uma criança amaldiçoada siga-me em casa
Mãe proteja-me, eu irei ao rio
Não permita que uma criança estúpida siga-me em casa
Olugbon morrei e deixou filhos atrás dele
Arega morreu e deixou filhos atrás dele
Olukoyi morreu e deixou filhos atrás dele
Eu não poderei morrer sem deixar filhos atrás de mim
Eu não poderei morrer de mãos vazias, sem descendentes [1].
No Brasil, porém, o termo Àbíkú, dito "Abikum" tem significado totalmente diverso. A mãe que entra grávida para o processo de iniciação, dá a luz à uma criança que já nasce "feita pronta", sem necessidade da tonsura ritual. Quando esta criança completa sete anos, sacrifícios são feitos para seu Òrìsà, sua cabeça é recoberta por uma cabaça antes que o sangue seja derramado, pois sobre a cabeça de uma criança "Abikum" o sangue não deve correr.
Esta criança nunca estará sujeita a um transe de possessão por um Òrìsà, a ela estarão vetadas a maioria dos cargos dentro da hierarquia sacerdotal brasileira. Ao mesmo tempo, ela já nasce com um posto honorífico, o de "feita sem ter sido raspada", e é tido com certo que nenhum mal físico ou espiritual poderá atingi-la.
Dizem também alguns sacerdotes que as crianças que nascem em datas determinadas são "Abikum". E, sendo assim, pais e mães ambiciosos, programam seus filhos para que nasçam nestes dias, e até mesmo operações cesarianas são realizadas, para adequar a chegada ao mundo das crianças às datas de nascimento apropriadas para "Abikum".
O modo de encarar a pessoa "Abikum" muda de casa para casa, podendo ser acrescentados ou eliminados detalhes dessa explanação.
Os pais e mães de Òrìsà brasileiros deveriam reavaliar seu conceito sobre crianças Àbíkú, uma vez que estes nascimentos ocorrem não só na terra Yorùbá, elas nascem em todo o mundo e no Brasil também. É imperioso também que se instruam sobre todo o ritual sacro a ser realizado dentro da problemática Àbíkú.
Vários povos ao redor do Golfo de Guinéa tem a mesma crença nos Àbíkú, embora dêem à eles nomes diferentes. Os Nupe chamam-nos de Kuchi ou Gaya-Kpeama. Entre os Ibo, são chamados Ogbanje ou Eze-Nwanyi ou Agwu ou ainda Iyi-Uwa Ogbanje. Já os Haussa chamam-nos Danwabi ou kyauta. Os Akan denominam a mãe de um Àbíkú Awomawu e entre os Fanti são conhecidos por Kossamah.
Famílias que já perderam um ou mais filhos, tendem a buscar na religião um consolo e uma explicação para estas mortes, e é dever da Tradição de Òrìsà e do Candomblé Ketu, estar apta para oferecer, além de um amparo religioso que diminua o sofrimento dos pais, uma solução para que tal tragédia não mais ocorra.
Temos muita pouca literatura em português sobre o assunto, talvez apenas a tradução de um excelente artigo de Pierre Verger, publicado em 1983 na Revistas Afro-Asia no 14, com uma explanação ampla sobre Itan Ifá, Oruko Àbíkú, folhas e Ofo do qual farei citações literais mais adiante.
Outros autores africanos, franceses e ingleses falam sobre o assunto, em considerações superficiais ou profundas, mas suas publicações não estão disponíveis para a quase totalidade do sacerdócio brasileiro.
O fato de não possuirmos no Brasil local determinado, como a Floresta Àbíkú de Awaiye, não nos impede de sacralizar parte de um bosque para receber as oferendas das famílias das crianças Àbíkú.
Tomando por base as recomendações do Itan Ifá, um Ebo poderá ser montado com um pedaço de tronco de bananeira, roupas e gorros tingidos de òsun e bordados de guizos e búzios, pratos com comidas [Iyan; Akara; Ekuru; Eko; Doces; Canjica; Frutas; Mel; Guizos; Bebidas; Animais; Cabra; Pombo; Galo; Folhas].
As roupas serão colocadas nos galhos da árvores, as comidas e oferendas ao redor no chão, ou monta-se um carrego como para a morte, embrulhado em pano branco, que será enterrado ou solto nas águas de um rio.
Não é necessário o uso de palavras, pois só o fato dos pais saberem qual o significado da oferenda secreta é suficiente para dar força mágica ao Ebo.
Nada porém dever ser feito sem confirmação e autorização de Òrúnmìlà, pois só a ele cabe nos orientar em nossas dificuldades e dúvidas.
As folhas são colhidas como oferenda e utilizadas para fazer fricções no corpo, ou na feitura de pós mágicos que serão esfregados nas incisões no corpo e rosto dos Àbíkú, e na confecção de amuletos (Onde) ou para banhos rituais,
Cada folha tem sua frase mágica, chamada Ofo, que aumenta seu poder de atuação no Ebo.

Cito aqui textualmente os Ofo escritos por Pierre Verger:
§ Ewé Abirikolo, insinu Òrun e pehinda.
(Folhas de Abirikolo, coveiro do Céu, voltai)
§ Ewé Agidimagbayin, Olorum maa ti kun, a a ku mo
(Folha de Agidimagbayin, Olorun fecha a porta do Céu para que não morramos mais)
§ Ewé Idi l'ori ki ona Òrun temi odi
(Folha de Idi, dizei que o caminho do Céu está fechado para mim)
§ Ewé Ija Agbonrin
(Não ande pelo longo caminho que conduz ao Céu)
§ Ewé Lara Pupa ni osun a won Àbíkú
(A Folha de Lara Vermelha é o cânhamo dos Àbíkú)
§ Olubotuje ma je ki mi bi Àbíkú omo
(Olubotuje não me deixe parir filhos Àbíkú)
§ Opa Emere ki pe ti fi ku, yio maa eu ni, nwon ni, nwon ba ri Opa Emere
(Vara de Emere não os deixe morrer, isto lhes agrada, ver a Vara de Emere) [2].
As crianças Àbíkú devem, no sétimo dia a partir do nascimento, se forem meninas, ou no nono dia, se forem meninos (se for o caso de gêmeos, o dia certo é o oitavo) passar pelo ritual de Ikomojade , quando recebem um nome específico que desestimule sua volta ao Òrun. Nesta cerimônia são usados água, dendê, sal, mel, obì, peixe, gin, atare.
NOMES ÀBÍKÚ
§ Omolabake - Esta é uma criança que eu mimarei.
§ Kujore - Deus poupou este aqui.
§ Siwoku - Pare de morrer. Tire as mãos da morte.
§ Kalejaye - Sente-se e goze a vida.
§ Omotunde - A criança voltou.
§ Maku - Não morra.
§ Kikelomo - Crianças são feitas para serem mimadas.
§ Moloko - Não tem mais enxada para enterrar.
§ Ayedun - A vida é doce.
Os nomes Àbíkú negam a morte e contam a doçura e a alegria da vida. Contam também como a Terra é bela e boa para se viver. Deve-se sempre chamar a criança por este nome, que pode ser incorporado oficialmente ou não aos seus outros nomes e sobrenomes. Isto também ajuda no rompimento do vínculo com o Egbe Òrun Àbíkú.
Como a descoberta do pacto é algo difícil, sempre próximo ao dia do aniversário da criança, até que esta complete 19 anos ou pelo prazo que o Ifá determinar, devem ser feitas oferendas nos locais sacralizados, acompanhadas ou não de Ebo a Egbe Eleriko.
Para Òrìsà Egbe se colocam, em uma grande cabaça, os seguintes elementos: Ovos; Akasa; Iyan; Akara; Eba; cana-de-açúcar; Obi; Éerù, Ekodide; Bananas; Àádun; Doces - em um número de 1 ou 6. Esta cabaça é fechada, colocada em um saco e solta num rio, com acompanhamento de rezas e cantigas,
REZA (DE IBADAN)
Egbe. a afável mãe, aquela que é apoio suficiente para aqueles que a cultuam.
Aquela que veste veludo, a elegante que come Cana-de-Açúcar na estrada de Oyo.
Aquela que gasta muito dinheiro em óleo de palma.
Aquela que está sempre fresca e tem fartura de óleo com o qual ela realiza maravilhas.
Aquela que tem dinheiro para o luxo, a linda.
Aquela que sucumbe à seu marido como à uma pesada clave de ferro.
Aquela que tem dinheiro para comprar quando as coisas estão caras [3].
CANTIGA [DE LALUPON]
Por favor, use um Oja.
O Oja é usado para atar as crianças em nossas costas.
Eu posso cultuá-la todo o quinto dia.
A Mãe Egbe que mora entre as plantas.
Dê-me meus próprios filhos.
Eu posso cultuá-la a cada cinco dias [3]
Os Àbíkú não são, como querem certos autores ou sacerdotes, seres maléficos, que tem por "missão" causar sofrimento às suas mães.
Eles carregam consigo, por causa de seu constante morrer/renascer, o peso de Iku, a morte, e são seres divididos entre a vontade de ficar na Terra com suas famílias e o desejo e a obrigação de retornar ao Egbe Òrun.
O Bàbálòrìsà ou Ìyálòrìsà, tenho verificado que uma criança é Àbíkú, deve estar preparado para contornar a natural reação dos familiares, de medo, susto, repulsa e mesmo horror, porque a primeira impressão de pais não habituados ao assunto, é crer que o sacerdote coloca seu filho em uma classificação espiritual de maldade e perversão. Também o risco iminente de uma morte súbita apavora a família que tende a reagir com agressividade ou incredulidade, e quer garantias infalíveis e imediatas que isso não é verdade, por quaisquer meios.
Portanto, é necessário que se explique aos pais o problema, e que se dê ao mesmo tempo soluções adequadas, que se cite casos e exemplos, naturalmente sem falar em nomes ou detalhes desnecessários, a fim de que os familiares concordem em ser totalmente esclarecidos e orientados para uma solução definitiva. Explicar também que oferendas "podem" reter o Àbíkú na Terra, se feitas corretamente, mas antes que tenha sido o pacto identificado e rompido, a oração e a crença profunda nos Òrìsà é de grande valia.
Mães que já tenham perdido filhos Àbíkú devem ser avisadas da necessidade de oferendas para que o Àbíkú não volte a nascer de seus corpos e elas possam dar à luz crianças normais.
Por vezes o nascer e morrer inúmeras vezes de uma criança pode abalar física e psiquicamente a Mãe e recursos médicos e terapêuticos "nunca" devem ser abandonados. Pelo contrário, sua utilização deve ser incentivada, em combinação com o tratamento espiritual.
Os pais não devem considerar isso com "castigo", "karma", "feitiço" ou outras explicações engendradas pela falta de conhecimento. Para isso o sacerdote deverá esclarecê-los e pacificá-los com a solidez e peso de seus argumentos.
Assim, no Brasil, como nos países Yorùbá, a problemática Àbíkú será contornada e menos pais serão vítimas de sofrimento causado pela morte de seus filhos.

Este trabalho pode ser copiado, divulgado, reproduzido, desde que na íntegra, e que sejam MANTIDAS SUAS CARACTERÍSTICAS RELIGIOSAS e divulgada a fonte.
BIBLIOGRAFIA
[1] - Yorùbá religion & medicine in Ibadan, 1980, George E. Simpson, Ibadan University Press.
[2] - Afro-Asia NO. 14, 1983, A Sociedade Egbé orun dos Àbíkú, as crianças nascem para morrer várias vezes, Pierre Verger, pg. 138 a 160.
[3] - Yorùbá religion & medicine in Ibadan, 1980, George E. Simpson, Ibadan University Press.
[4] - Yorùbá religion & medicine in Ibadan, 1980, George E. Simpson, Ibadan University Press.
As outras informações foram obtidas através da tradição oral, com os anciãos da família Epega, em Ode Remo e Lagos.
Glossário
Àbíkú - nós nascemos para morrer, classificação espiritual em terra yorùbá.
Ìyá - Mãe.
Orún - mundo paralelo onde moram Ancestrais e Òrìsà, terceira dimensão que nos rodeia, mundo espiritual.
Egbé - grupo, comunidade.
Emere - o mesmo que ábiku.
Itan Ifá - versos do Oráculo sagrado, sabedoria ancestral.
Odú - resposta do Ifa, traduzido por - você se manifesta .
Ifá - nome do Oráculo sagrado yorùbá. Por vezes Òrúnmìlà também é chamado assim.
Osun - substancia vegetal vermelha, usada em rituais.
Òrúnmìlà - Òrìsà que responde no Oráculo Ifa, testemunha do destino do homem.
Ebo - oferenda, presente, sacrifício.
Sawooro - pequenos guizos ou sinos de metal.
Óndè - pequeno saco de couro que contém elementos mágicos, amuleto.
Yorùbá - língua falada em parte da Nigéria, povo que habita o Golfo de Guinéa, etnia africana.
Bàbáláwo - Pai do segredo, Sacerdote do Òrìsà Òrúnmìlà.
Èérù - fava africana.
Efun - substancia vegetal branca, usada em rituais.
Egbé - Òrìsà feminino, que é dona do ouro e da riqueza, também dá filhos às mulheres.
Egungun - Ancestral.
Orìkí - frase ou verso de louvor.
Ibadan - cidade da Nigéria.
Nupe - etnia africana.
Ibo - etnia africana.
Haussa - etnia africana.
Akan - etnia africana.
Fanti - etnia africana.
Ofo - palavra ou frase mágica.
Iyan - Massa de cará cozido e pilado.
Akara - bolo de feijão fradinho, conhecido no Brasil como acarajé.
Ekuru - bolo de feijão fradinho, enrolado em folha de bananeira e cozido no vapor.
Eko - Bolo de milho branco, akasa.
Obi - Cola Acuminata, fruto africano, utilizado em rituais, presente no quotidiano dos yorùbá.
Ekodide - pena do pássaro Odide, utilizado em rituais.
Àádun - Bolo de milho amarelo.
Oja - pano que as mães usam para amarrar os filhos nas costas.
Bàbálòrìsà - Pai que têm os Òrìsà, Sacerdote.
Ìyálòrìsà - Mãe que têm os Òrìsà, Sacerdotisa.

Ìyá Sandra Medeiros Epega
Ìyálòrìsà do Ilé Leuiwyato, Templo de Tradição de Òrìsà, dedicado a Òrìsà Sàngó, em Guararema, S.P., Brasil.
*extraído de www.sandraepega.com.br*

domingo, 20 de março de 2011

O Papel das Máscaras na Cultura Africana


A máscara é um objeto que causa um fenômeno intrigante, qualquer individuo pode se tornar outra pessoa por debaixo de sua cobertura. Este processo de transformação é apreciado por diferentes culturas para simbolizar seus ancestrais e divindades na maioria dos rituais. Para alguns grupos, como tribos africanas, o poder da máscara vem desde o período de migração dos antigos povos. Algumas são criadas para assegurar colheitas férteis, fator muito importante na maioria das sociedades africanas, outras representam um papel sagrado na vida do indivíduo africano vindo desde sua infância até o momento de seu enterro. A máscara é vista como um símbolo e instrumento dentro de diversas comunidades facilitando a identificação de qualquer família ou clã dentro de seus ciclos.




A maioria das máscaras é feita de madeira, devido a sua abundância natural nas florestas. Os escultores selecionam freqüentemente os tipos diferentes de madeiras com várias razões em mente. Para o africano, a árvore é um ser vivo com alma, assim eles a cultuam com vestimentas acreditando que elas tenham uma vida melhor até o momento de seu corte ou morte natural. Elas também possuem espíritos que habitam seu interior, este fato leva o escultor a consultar freqüentemente um Bàbáláwo, que realiza cerimônias de purificação e oferece um sacrifício para satisfazer o espírito da árvore com antecedência. Assim que a árvore é cortada, o escultor chupa sua seiva para alcançar uma fraternidade com o este mesmo espírito, fazendo com que ele possa achar uma nova moradia em outro lugar. O escultor acredita que este espírito transfere uma parte de sua força à máscara ou escultura, tornando-as poderosas. O talento do escultor em fazer máscaras sagradas se assemelha ao de um mestre que utiliza muita filosofia e sentimento em seus ensinamentos e doutrina. A madeira fresca é verde e macia, fator que facilita o trabalho do escultor, que por muitas vezes esfrega óleo de palma na peça para reduzir a velocidade no processo de secagem.

Geralmente a madeira apresenta várias manchas de sangue causadas pelos ritos de sacrifício a fim de simbolizar seu valor e poder. O escultor retira somente o excesso destas manchas amolecendo sua superfície com materiais orgânicos como folhas, peles de animais e arenito. A pintura é feita com a extração de tinturas vindas de folhas, frutos, alguns legumes e até mesmo da terra.


Existem outros tipos de máscaras feitas com outros materiais como pano, ráfia, conchas, contas, dentes, ossos, fibras vegetais e pedaços de metal. As Máscaras retratam variedades faciais que podem ser abstratos, animais, uma combinação de características humanas como expressões amedrontadoras exageradas ou alegres e festivas, além de se diferenciar através de suas várias formas e tamanhos diferentes. Algumas Máscaras ficam presas diretamente na cabeça do dançarino, outras podem se sustentar frente à face presa na fantasia ou coberta de cabeça, como também existe um tipo parecido com um grande capacete que cobre a cabeça inteira e fica descansada sobre os ombros. Existe também uma máscara de panos bem grossos que tem uma aparência quadrada que fica presa na coroa da cabeça, unida a uma fantasia que cobre o corpo inteiro até os dedos dos pés. O dançarino olha por uma abertura no material da fantasia ou por um fino pano negro que lhe cobre face. O efeito é fazer o dançarino se aparecer com um antigo sacerdote, confirmando a convicção que ele é um espírito sobrenatural. São de dois modos primários as funções das máscaras africanas: o primeiro é utilizado em cerimônias públicas com participação de audiência; e o segundo provê uma cerimônia privada para sócios de uma sociedade secreta. Elas exercem funções nos principais rituais comuns como funerais, cultos de antepassado, iniciações e mitos que podem ser representados por máscaras de animais mitológicos, heróis e até mesmo o sol e a lua.

A fertilidade e aumento de humanos, animais ou a terra estão entre as preocupações mais vitais do africano. Ele depende de harmonia com a natureza e seus Deuses. Sendo assim, as festividades agrícolas são periodicamente celebradas ao longo das fases diferentes da estação crescente, de clarear a terra a encher as reservas de comida. Os altos sacerdotes utilizam suas máscaras durante todas as festividades representando uma comemoração teatral de suas divindades e ancestral, mostrando o conceito básico que a terra pertence aos antepassados. Uma colheita próspera depende da bênção deles e do testemunho do Ser Supremo. Observem que não estou representando diretamente os Òrìsà ou Olódùmaré simplesmente por estar falando de várias tribos e cidades diferentes de toda África. Os ritos funerários e o culto de espíritos ancestrais estão entre os rituais mais difundidos no mundo. Estes cultos são relacionados a uma larga variedade de ocorrências extremamente importantes, como a fertilidade da terra, seus animais e seres humanos. Os africanos acreditam que aqueles que morrem e são enterrados, fertilizam a terra com suas almas. Sendo assim, a terra pertence a eles, os antepassados, que são invocados para comemorar junto com seus familiares à harmonia do presente momento. Eles são vestidos com belas roupas que seriam preparadas justamente para o momento do retorno após a morte, como também utilizam as máscaras que simbolizavam suas identidades dentre os outros membros da comunidade. Para as sociedades secretas, os ritos de passagem acontecem quando um homem se move de um ciclo a outro em suas fases da vida. Nenhuma transição é mais importante que a passagem de adolescente para adulto, lhe dando direito de se tornar um sócio responsável da sociedade. As Máscaras que são usadas nas sociedades secretas servem para manter em segredo várias cerimônias de iniciação. Há vários tipos de sociedades secretas, mas o propósito principal delas é manter as leis e o exercício de controle social e político em cima das atividades comunitárias. Podemos concluir que as máscaras são símbolos que ilustram pessoas diferentes em diversas partes de sua cultura, estando presente no nascimento, adolescência, maioridade, matrimônio e morte. Embora estas passagens são semelhantes em toda natureza, nossas interpretações destes rituais ou cerimônias mostram que sempre esteve bem centralizada a formação social africana que até hoje continua mascarada para muitos outros povos.

sábado, 19 de março de 2011

ORÒ - Entre os Yorùbá Orò é manipulado pela Sociedade Ogboni(Osugbo).

Muitas sociedades alcançaram o título de “poderosas” na Religião Yoruba,mas nenhuma alcançou o prestigio da Sociedade Secreta Orò. Na antiguidade esta sociedade, semeava o terror dentro do poder, já que seus emissários ocultos, por baixo de máscaras impediam o abuso de sacerdotes, monarcas inclusive de anciões, que formavam o conselho central do reino. A missão desta sociedade, prevalecia em todas as exigências religiosas e era tão poderosa, que possuía o direito de vigiar se os governantes respeitavam os preceitos morais divinos. Eles são os defensores e reguladores da ordem tradicionalista, do cuidado com o conhecimento, do folclore, da história e dos mitos. Os membros desta sociedade, desempenhavam múltiplas funções sociais. Os membros da Sociedade Orò, se preocupavam, com o adequado "respeito ao culto dos ancestrais", mantendo-o vivo, por tanto os membros desta sociedade se encarregavam de conseguir que os mortos fossem enterrados conforme determinados rituais apropriado e sua almas chegassem com segurança ao reino dos mortos, inclusive aquelas pessoa, que por infelicidade fossem mortas em acidentes ou tivessem mortes trágicas. Orò é um Orisa masculino, todos os homens adoram a esta divindade, somente eles podem recebe-los e não devem existir duvidas a respeito de sua masculinidade.

Orò Aboluaje, é o título que se lhe dá e seu significado seria: “o que pode recolher da areia da vida o chefe dos feiticeiros”, é um espírito deificado dos homens. Orò recebe o nome de Ita e tem um companheiro com o qual lhe chama ao vento, seu nome é Irele, com o qual caminha e se alimenta com ele e é representado por um filete, cuja confecção é um segredo e vive encima dele. É chamado a divindade do mistério. Segundo o Odu Ogbe-Osa, onde dice que vagava pelo bosque e fundou o estado de Kwara, a deidade do segredo do retiro e do encanto. Na antiguidade a Sociedade Orò, estava vinculada à Sociedade Ogboni(Osugbo), eram os executores dos criminosos; quando um criminoso era condenado pela Corte Ogboni, eram os membros do Culto de Orò, os que executavam a sentença. Quando Orò, saía à rua durante a noite, os que não pertenciam a esta sociedade deveriam ficar recolhidos em suas casa ou corriam o risco de morrer. Eles estabeleciam “o toque de recolher”. Durante o ano havia de sete à nove dias dedicados as festividades de Orò, especialmente em lua nova, onde as mulheres teriam que permanecer trancadas dentro de suas casas, com exceção as poucas horas, em que era permitido saírem para diversos fins. No sétimo dia, nem sequer, isto seria permitido, sob rigorosa pena de morte. Deveriam permanacer trancadas, sem importar com status social, título de nobreza. Quem desobedecia as regras desta sociedade eram executado no ato do tabu. Orò é uma das forças sobrenaturais que atuam durante a noite. Esta divindade trás prosperidade, mas ao mesmo tempo devemos mencionar, que nem todos os Bàbálàwò, lhe devem consagrar e ao faze-lo atraíra calamidades, inclusive a morte. Orò Aféfé Ikú! (Orò o vento da morte!)

A Sociedade Orò (Orùn ou Orò Lewe)
Para chegar a entender o conceito do que para os Yorúbà representam as Sociedades Secretas, devemos entender que estas chegaram a semear o terror em épocas passadas. Em realidade, o poder estava menos em mãos dos reis e anciãos, do que de numa Sociedade secreta poderosa, cujos emissários se ocultavam embaixo máscaras, o que lhes permitia conseguir sem resistência alguma o que desejavam. A Sociedade Secreta Orò, chegou às mãos dos homens através do seguinte raciocínio:

Olódùmarè, o deus criador, deu a primeira mulher, Odù, a capacidade de deleitar-se com a vida. Não obstante, ela fez mal uso deste poder, e todos os que a olhavam na face corriam o perigo de acabar cegos. Òbàtàlá se dirigiu então a Òrúnmìlà, o deus das profecias, este lhe aconselhou a través do Oráculo de Ifá que tivesse paciência. Odù pediu a Òbàtàlá que fosse a sua casa viver com ela e visse o que fazia. Um dia Òbàtàlá ofereceu como sacrifício alguns caracóis (Igbin). Comeu a baba de um deles e ofereceu também a Odù. A mucosidade do caracol abrandou o coração de Odù, de forma que Òbàtàlá pode conhecer todos seus segredos, incluído o da sociedade Orò e Egúngún. Deste momento em diante, estas sociedades, estão em poder dos homens. Odù recomendou buscar a benevolência e a aceitação das mulheres para que estas seguissem sendo mães. Assim se fez e os homens tiveram poder sobre as mulheres, porém estas tiveram em suas mãos o poder sobre a vida. Se não tivesse sido assim, não haveriam nascimentos.

A Sociedade Orò é considerada entre os Yorúbà a mais poderosa. Entre os Oyo e os Egba (cuja capital é Abeokuta) seu poder político supera as exigências religiosas. Orò possui o direito de vigiar se os governantes respeitam os preceitos morais divinos. Em suas mãos está a salvaguarda da ordem tradicional, o conhecimento e cuidado dos mitos, o folclore e a historia. Seu saber encerra a sabedoria da sociedade. Orò antes do período colonial tinha o direito de condenar a morte em tribunais secretos e justiçar os condenados. Não obstante Orò desempenha também outras funções sociais. Os membros de sua sociedade se preocupam em enterrar adequadamente os mortos e conseguir que suas almas cheguem com segurança ao reino dos defuntos; e dá também sepultura à aquelas pessoas que tenham tido uma má morte, por exemplo na assassinados ou por acidente.

Orò está basicamente a serviço dos espíritos dos mortos e por isso só aparecem de noite. Seu emblema é um pedaço plano de ferro ou madeira (sobre tudo de madeira de Óbó ou Kam, que as bruxas (Aje) não podem ver nem farejar, presa a um cabo com corda, o que a converte em uma madeira que zumbi (emitindo um som todo particular ao ser manuseada). Cada Sociedade dispõe normalmente de dois tipos destes utensílios. Um é pequeno e se conhece com o nome de Ise (moléstia) e o tom estridente que produz, se conhece como Aja Orò / Aaja Orò ( Cachorro de Orò / Vento de Orò = Orò Afefe Ikú! ). O outro provem dos madeiros grandes chamados Agbe (espada) e emite um tom surdo que é considerado como a mesma voz de Orò, este som anuncia que a morte está ameaçando alguém. Orò reproduz a voz dos mortos e por isso se diz que são eles os chamam. Antigamente aviam sete dias do ano, (as vezes eram nove) dedicados a adoração de Orò sempre em época de lua nova. Os adeptos da sociedade(entre os de Abeokuta),costumavam levar máscaras de madeira, porém estas não chegam a cobrir todo o rosto da pessoa.

Fonte:Fagbenusola

KADARA



Como tratar do tema "Karma", sem nos reportarmos ao nosso "Destino Pessoal" ( Kadara )? Tratando-se do assunto Kadara, certamente adentraremos em nosso Ipin Ori (destino Pessoal), que por sua vez nos levarão a avaliar Akunleyan, Akunlegba e Ayanmo.

O chamado "Kadara" (Karma) pode ser visto como um débito ou adquirido, más também pode ser visto como uma prova a ser vivenciada, que pode ser mesmo definida pelo próprio Ìpìn ( destino). É Òrùnmìlà quem assiste e entrega do nosso kadara ou Ìpìn, por isso é denominado Elérìí Ìpìn, ou seja, a Testemunha do Destino. O nosso Kadara foi definido antes mesmo de nosso nascimento, quando então tivemos as opções de escolha e aceitação na presença de Ajáàlá, porém nosso Ìpìn certamente sofre influências e modificações aqui neste plano, devido as nossas atitudes (Lei de Causa e Efeito), bem como pela influência de terceiros (infelizmente isso é factível, pois há quem manipule os ajoguns de forma a interferir negativamente em nosso Ìpìn. Porém isso também é reversível através dos Etutus apropriados, afinal Òrùnmìlà é o Alátúnse Aìyé, ou seja, aquele que restaura a ordem no mundo). Não acredito no estático, ou seja, na inércia, pois a vida é "movimento", assim sendo, meu destino sou eu quem o faz, pois serei a soma de meus atos, bons ou maus, negativos ou positivos, não importa, serei sempre o resultado desta soma.

Àtúnwa, quanto à reencarnação e uma possível quitação do Kadara, creio ser real, pois se por um ou outro motivo não cumprimos nosso Ìpìn. Ìwà Pélè, o bom caráter seria então pressuposto fundamental para o cumprimento de nosso destino de forma positiva no àiyé. Sabemos ainda que o executor de nosso Ìpìn é Èsú, em última análise é quem aplica as sanções determinadas por nossas ações. Acreditamos que o Orí está intimamente ligado ao conceito de Ìpìn Orí e à predisposição do homem para a realização deste destino.
Como já foi dito acima, o Orí é parte que representa nosso Ìpìn Orí (destino pessoal), ele está dividido em:
a- Akunleyan, uma parte do destino que o espírito ao se preparar para encarnar-se na terra pega na casa de Ajáàlá (O olheiro do céu ).
b- Akunlegba, parte do destino que serve como elemento complementar do Akunleyan.
c- Ayamo, parte do destino que não possibilita mudanças ( isso porque está relacionado a coisas como; Pai, Mãe, irmãos e a família de um modo geral).


- AS RELIGIÕES E A QUESTÃO DA VIDA E DA MORTE

Aqueles que tem suas raízes religiosas no pensamento judaico-cristão encontram grande dificuldade em compreender as religiões africanas ou afro-descendentes no que diz respeito a questão dos valores éticos e morais que regulam as relações entre as pessoas e entre essas mesmas pessoas e as divindades que são cultuadas. Nas religiões de origem judaico-cristã é entendido que os valores ético-morais são estabelecidos diretamente por Deus para a regulação das relações humanas e para o ordenamento das relações entre o profano e o sagrado, a exemplo das tábuas da lei de Moisés. Assim, esse Deus, ao mesmo tempo que assume a figura do supremo legislador, permanentemente vigia e controla os homens, seus pensamentos e ações, julgando-os e intervindo sempre que entende necessário, seja pessoalmente, seja através de seus mensageiros que são os anjos e arcanjos, no processo relacional entre o divino e o humano. Ao mesmo tempo, por condição dessa relação e de suas regras, se estabelece a noção de pecado. O homem já nasce marcado pelo pecado original, que diz respeito a sua própria existência sobre a terra, acidente em um programa que esse Deus havia estabelecido para a sua Criação e que o homem não cumpriu. Estigmatizado assim, cabe ao homem sofrer durante toda a sua existência, resignadamente, procurando incessantemente fazer juz ao perdão divino e, desta forma, aspirar ao reencontro com a graça divina após a morte. No decorrer da existência o homem vai vivendo, quase que de forma compulsória e compulsiva uma vida de pecados na sua relação com Deus e as leis divinas. Essa noção de pecado, tão cara às religiões cristãs, termina por imprimir no mundo psicológico de todos os envolvidos um permanente, ainda que muitas vezes difuso, estado de culpa.

O homem se vê incapacitado, de certa maneira em função de sua própria natureza e desse desencontro primordial, ao exercício permanente de vivências dentro dos modelos de perfeição e santidade requeridos; persegue em Deus uma relação que se estabeleça em níveis de aceitação e onde Deus, de certa forma, respeite a individualidade de cada um, afinal de contas por Deus mesmo definida na criação particular de cada ser humano. Em um mundo essencialmente não linear é exigida de cada homem a linearidade absoluta. Nas religiões africanas e afro-descendentes, Deus, quando assume o atributo de supremo legislador o faz no que diz respeito ao papel de grande inteligência ordenadora do cosmos, de supremo "projetista" da sua criação, desenvolvendo uma ética que é toda voltada, ou focada, no seu próprio projeto Criador. Entre os iorubás, por exemplo, Deus, nomeado por eles de OLODUNMARE, é considerado o Supremo Juiz e é chamado de "OBA ADAKE DA JO" - O Rei que mora acima e que executa os julgamentos em silêncio", significando que ele controla o destino dos homens e a ordem da Criação.

Nas chamadas religiões africanas ou afro-descendentes cada ser humano distingue-se dos demais por uma criação que é essencialmente particular e que se manifesta através da individualidade chamada ORI. Essa diferenciação é de natureza interna e nada no plano das aparências físicas nos permite qualquer referencial de identificação dessas diferenças. ORI é o ÒRÌSÀ, a divindade pessoal, em toda a sua força e grandeza. ORI é o primeiro a ser louvado em todos os momentos, representação particular da existência individualizada (a essência real do ser). É aquele que guia, acompanha e ajuda a pessoa desde antes do nascimento, durante toda vida e após a morte, referenciando sua caminhada e a assistindo no cumprimento de seu destino.Enquanto ÒRÌSÀ pessoal de cada ser humano, com certeza ele está mais interessado na realização e na felicidade de cada homem do que qualquer outra divindade. Da mesma forma, mais do que qualquer um, ele conhece as necessidades de cada homem em sua caminhada pela vida e, nos acertos e desacertos de cada um, tem os recursos adequados e todos os indicadores que permitem a reorganização dos sistemas pessoais referentes a cada ser humano.

O conceito de ORI está intimamente ligado ao conceito de destino pessoal e à instrumentalização do homem para a realização deste destino. Podemos perceber que a compreensão sobre o papel que ORI desempenha na vida de cada homem está intimamente relacionado à crença na predestinação - na aceitação de que o sucesso ou o insucesso de um homem depende em larga escala do destino pessoal que ele traz na vinda para o mundo. A esse destino pessoal chamamos KADARA ou IPIN e é entendido que o homem o recebe no mesmo momento em que escolhe livremente o ORI com que vai vir para a terra. Muitas referências são feitas às relações entre ORI e o destino pessoal. O destino descrito como IPIN ORI - a sina do ORI - pode ser dividido em três partes: AKUNLEYAN, AKUNLEGBA E AYANMO. AKUNLEYAN é o pedido que você fez no domínio de IJALA - o que você gostaria especificamente durante seu período de vida na terra: o número de anos que você desejaria passar na terra, os tipos de sucesso que você espera obter, os tipos de parentes que você deseja. AKUNLEGBA são aquelas coisas dadas a um indivíduo para ajudá-lo a realizar esses desejos. Por exemplo: uma criança que deseja morrer na infância pode nascer durante uma epidemia para garantir a morte dele ou dela.

AYANMO é aquela parte do nosso destino que não pode ser mudada: nosso gênero (sexo) ou a família em que nascemos, por exemplo. Ambos, AKUNLEYAN e AKUNLEGBA podem ser alterados ou modificados quer para bom ou para mau, dependendo das circunstâncias. Assim o destino descrito como IPIN ORI - a sina do ORI pode sofrer alterações em decorrência da ação de pessoas más chamadas como ARAYE - filhos do mundo, também chamadas AIYE - o mundo ou ainda, ELENINI - implacáveis (amargos, sádicos, inexoráveis) inimigos das pessoas.Como foi dito, nossos ORI espirituais são por eles mesmos subdivididos em dois elementos: APARI-INU e ORI APERE - APARI-INU representa o caráter (natureza), ORI APERE representa o destino. Um indivíduo pode vir para a terra com um destino maravilhoso, mas se ele vem com mau caráter (natureza), a probabilidade de desempenho (cumprimento, execução) desse destino é severamente comprometida. Vemos, então, que o destino também pode ser afetado pelo caráter da pessoa. Um bom destino deve ser sustentado por um bom caráter. Este é como uma divindade: se bem cultuado concede sua proteção. Assim, o destino humano pode ser arruinado pela ação do homem. IWA RE LAYE YII NI YOO DA O LEJO, ou seja, - "Seu caráter, na terra, proferirá sentença contra você".

O nome IPIN está igualmente associado à ORUNMILA, conhecido como ELERI-IPIN - o Senhor do Destino e que é aquele que esteve presente no momento da criação, conhecendo todos os ORI, assistindo o compromisso do homem com seu destino, os objetivos de cada um no momento de sua vinda para o AIYE, mundo visível, o programa particular de desenvolvimento de cada ser humano e sua instrumentalização para o cumprimento desse programa. ORUNMILA conhece todos os destinos humanos e procura ajudar os homens a trilhar seus verdadeiros caminhos. Temos, assim, que um dos papéis mais importantes de ORUNMILA em relação ao homem, além de ser o intérprete da relação entre as divindades e o homem, é o de ser o intermediário entre cada um e o seu ORI, entre cada homem e os desejos de seu ORI.Nos momentos de crise, a consulta ao oráculo de IFÁ permite acesso a instruções a respeito dos procedimentos desejáveis, sendo considerados bons procedimentos os que não entram em desacordo com os propósitos do ORI. O ser que cumpre integralmente seu IPIN-ORI (destino do ORI), amadurece para a morte e, recebendo os ritos fúnebres adequados, alcança a condição de ancestral ao passar do AIYE, mundo visível, para o ORUN mundo invisível. Se dissemos que, nas religiões africanas ou afro-descendentes, Deus não assume esse papel de legislador da moral e dos costumes, de regulador das relações sociais ou, particularmente, das relações entre os homens, quem efetivamente define essa estrutura de valores? Quem estabelece e controla os valores éticos e morais permanentes que regulam as relações humanas?

O princípio da senioridade que permeia todas as relações sociais, familiares e educacionais nas diversas culturas africanas também estabelece os costumes e organiza os padrões éticos e morais que regulam todas as relações dentro da sociedade. Os ancestrais, memória permanente cultuada nos grupos familiares e sociais, e os anciões são, desta forma, os responsáveis por esta ordem viva de regulação, sendo interessante observar que, sendo humano o estabelecimento e controle dos padrões, esses valores são sempre mutáveis e sujeitos a mudanças que acompanhem a modernidade ou a exigência de cada momento histórico. Temos então que esses padrões éticos e morais, mesmo os usos e costumes, serão sempre mais ou menos estruturados e rígidos conforme o grau de flexibilidade, de desenvolvimento e/ou permeabilidade cultural das gerações anteriores. Todas essas questões aqui colocadas determinam uma diferença essencial e significativa entre o pensamento judaico cristão e o pensamento afro-descendente sobre a relação vida-morte e, extremamente importante, determinam nas pessoas localizadas aqui ou ali uma diferenciação no enfrentamento dessa relação. Podemos pensar, assim, que as condições em que as pessoas ser relacionam com a relação vida-morte podem ser determinadas por essa visão religiosa que poderia nos levar a classificar as religiões em dois grandes grupos: religiões de vida e religiões de morte. A inclusão de alguém em um ou outro desses grupos, de certa forma, determinaria sua relação com a vida, com a saúde/doença e com a morte.

O indivíduo é dotado de dois instintos básicos "Eros" ou instinto de vida e "Tânatus" ou instinto de morte. A evolução da civilização humana pode ser descrita como a luta de Eros e Tânatus, ou seja "Ìyé àti Ikú". Nosso kadara é traçado dia a dia, pela manutenção ou não desse equilibrio, bem como pelo nosso procedimento.


Fonte: Prof. Rodolfo Tadeu

sábado, 12 de março de 2011

ÒRÌSÀ ÌROKÓ

O majestoso Iroko, poderosa árvore, em cujos galhos se abrigam divindades e ancestrais. Poderosa árvore aos pés da qual são depositadas as oferendas para as feiticeiras. Poderosa árvore cujas raízes alcançam o
Orun ancestral e o tronco majestoso serve de apoio a Olorun. Iroko é o representante supremo do Culto dos Iguis, o culto aos espíritos das árvores que se assimila ao de Egungum. Grupo do qual fazem parte Apaóka, Odan e Akokô. No Brasil é considerado o protetor de todas as árvores, sendo associado particularmente à gameleira branca.
Seu culto está intimamente associado ao de Ossain, a Divindade das Folhas litúrgicas e medicinais. É o Orixá da floresta, das árvores, do espaço aberto; por extensão governa o tempo em seus múltiplos aspectos, possue forte ligação com Xangô. Seja num caso ou noutro, o culto a Iroko é cercado de cuidados, mistérios e muitas histórias. A árvore simboliza, o tronco ereto e viril, membro fecundante da terra e do céu, elo, cordão umbilical entre o Orun e o Aiê, na concepção restrita Iorubá. No começo dos tempos, a primeira árvore plantada foi Iroko. Iroko foi a primeira de todas as árvores, mais antiga que o mogno, o pé de Obi e o algodoeiro. Na mais velha das árvores de Iroko, morava seu espírito. E o espírito de Iroko era capaz de muitas mágicas e magias. Iroko assombrava todo mundo, assim se divertia quando não tinha o que fazer, brincava com as pedras que guardava nos ocos de seu tronco. Fazia mágicas, para o bem e para o mal. Todos temiam Iroko e seus poderes, quem o olhasse de frente enlouquecia até a morte. No Brasil, Iroko habita principalmente a gameleira branca, cujo nome científico é ficus religiosa. Na África, sua morada é a árvore Iroko, nome científico chlorophora excelsa, que, por alguma razão, não existia no Brasil e, ao que parece, também não foi para cá transplantada. Para o povo yorubá, Iroko é uma de suas quatro árvores sagradas normalmente cultuadas em todas as regiões que ainda praticam a religião dos orixás. No entanto, originalmente, Iroko não é considerado um orixá que possa ser "feito" na cabeça de ninguém. Para os yorubás, a árvore Iroko é a morada de espíritos infantis conhecidos ritualmente como "abiku" e tais espíritos são liderados por Oluwere. Quando as crianças se vêem perseguidas por sonhos ou qualquer tipo de assombração, é normal que se faça oferendas a Oluwere aos pés de Iroko, para afastar o perigo de que os espíritos abiku levem embora as crianças da aldeia. Durante sete dias e sete noites o ritual é repetido, até que o perigo de mortes infantis seja afastado. O culto a Iroko é um dos mais populares na terra yorubá e as relações com esta divindade quase sempre se baseiam na troca: um pedido feito, quando atendido, sempre deve ser pago pois não se deve correr o risco de desagradar Iroko, pois ele costuma perseguir aqueles que lhe devem. Iroko está ligado à longevidade. É referido como "Orixá do grande pano branco que envolve o mundo", numa alusão clara às nuvens do Céu. As árvores nas quais Iroko é cultuado normalmente são de grande porte; são enfeitadas com grandes laços de pano alvo (oja fúnfún) e ao pé dessas árvores são colocadas suas oferendas, notadamente nas casas de origem Ketu, onde recebe lugar de destaque. Jamais uma dessas árvores pode ser derrubada sem trazer sérias consequências para a comunidade. Iroko é o protetor das crianças indefesas, ele guarda para sí os espiritos dos Abiku, aqueles que quando chegam à Terra não se sentem bem e retornam a seu lugar de origem.Iroko é invocado em questões difíceis, tais como desaparecimento de pessoas ou problemas de saúde, inclusive a mental. Seus filhos são altivos e generosos, robustos na constituição, extremamente atentos a tudo o que ocorre a sua volta. Sua cor é o cinza, as cores das contas utilizadas nos ilekes de seus filhos é o verde e o marrom. O branco é muito utilizado em seus ojas, panos confeccionados de forma simples e com tecidos de baixa qualidade, preferencialmente o morim, que deve ser utilizado em seu tronco até o seu mais completo fim.

Orin T' Iroko

Iroko nsò?
Erò, Iroko nsò,
Erò.

(O que brota no Iroko?
Calma é o que brota em Iroko,
Calma)

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sàngó, Àyán e Bàbá Egún



A sinergia existente entre o Ebora Sàngó, Àyán e Bàbá Egún Na introdução deste novo tópico vou partir de um interessante Oríkì dedicado ao Ebora descendente Sàngó: - Sàngó Arékùjayé! [Sàngó a ru Eku j'ayé = Sàngó, aquele que realiza o Culto Egúngún, a fim de aproveitar a vida], uma clara demonstração de sua profunda interligação com Egúngún. Para que compreendamos melhor a questão postada neste tópico, é vital relembrarmos que o Ebora Sàngó, representa dinastia, neste sentido simbolizando a imagem coletiva dos Egúngún, enquanto que Egúngún representa a Ancestralidade em si, assim sendo podemos facilmente concluir que são duas faces da mesma moeda. Algumas pessoas afirmam que Sàngó teme Bàbá Egún, isso é no mínimo hilário, pois este poderoso Ebora não teme nada! O que acontece é que ele representa o elemento fogo, assim sendo, o que ele evita é o frio, representado pelos Egúngún. Podemos observar ainda que as vestes dos Ancestrais são na verdade, as vestes do Ebora Sángó, como podemos notar há sim grandes ligações entre eles e diferentemente do que pensam alguns, Sàngó é parte fundamental e integrante do Culto, tanto que os ritmos mais apropriados são o Alujá e o Bàtá. Os Tambores Falantes[Bàtá]instrumento de percussão yorùbá pertencente aos "Àyánbí ou Omo Ayán"[nome dado a todos os membros de uma família Yorùbá que cultuem os tambores Batá], marcam o ritmo da dança Bàtá que é rápido e energético, sempre acompanhando os Rituais de Sàngó, bem como as aparições dos Alárìnjó[Alárìnjó, é uma prática teatral[mascarada]secular e itinerante de cunho altamente satírico realizada pelo povo yorùbá], Agbégijó, Apidán e Eégún Alare[Alárì]. Retornando mais especificamente a Sàngó e Egúngún, percebemos então que são dois níveis similares e opostos, mas que representam a Ancestralidade[Dinastia e Antepassados]. Enfim, é bom abordarmos este tópico por que a Ancestralidade é a "Raiz", e não se Cultua Òrìsà apropriadamente sem a raiz, ou seja, sem Cultuar Egúngún. Há algum tempo venho trazendo a luz temas quase desconhecidos da grande maioria, sei que alguns de meus tópicos podem até causar alguma polêmica, más isso é apenas um efeito colateral passageiro, pois acredito que somente buscando e dividindo informação sustentada e concreta possamos de fato evoluir nossos conceitos sobre a Ancestralidade. Quanto ao Ebora Sàngó, há duas concepções, uma histórica e outra religiosa e algumas pessoas às vezes confundem as duas. Aqui tratarei somente da que me é afeto, ou seja, a concepção de que este Ebora descendente é o símbolo do elemento fogo, sendo o representante deste elemento sob o seu aspecto mais forte. Sàngó é um ícone de dinastia, e nesse aspecto em particular, torna-se a contrapartida de Bàbá Egún [Representante da Ancestralidade por excelência]. Então podemos observar que os dois se locupletam, nunca percamos de vista que a Cultura Religiosa Indígena Tradicional Africana, bem como a Afro-descendente se baseiam em binários opostos. Sàngó enquanto representante de dinastia tem profunda ligação com Ikú, más é sempre bom lembrar que a morte segundo o pensamento africano não é o fim, más sim o início de uma nova etapa ou ciclo. Quanto a temores, por certo nosso pai Sàngó nada teme haja vista que é um Ebora, e acredito que com o devido tempo, caiam por terra algumas crendices sobre o poderoso Sàngó. O que acontece é que na realidade, ele por ser um símbolo do quente[vermelho, fogo] evita o frio emanado por Egúngún, nada mais. Volto a frisar que as deidades não têm fronteiras, somente os homens a tem, se notarmos bem encontramos neste tópico uma profunda sinergia entre o Ebora Sàngó, Àyán a deidade dos Tambores Bàtá, Egúngún e Alárìnjó[Eégún Alare]. O que nos mostra claramente que nem tudo é aquilo que a princípio parece, e que existem explicações lógicas para tudo aquilo que praticamos dentro da nossa Fé.

Por:Ifagbenusola

CANDOMBLE ANTIGO





Sinto saudades só de pensar...
Só de pensar, queria eu fazer o tempo voltar...
em que os Candomblés, tinham chão de terra batida...
paredes pintadas de Cal...
uma cumeeira apenas, sem 2º andar...
em que as mulheres entravam na roda com saias simples porém bonitas e muthio bem costuradas...
aonde elas carregavam nos seios, laços singelos representando a feminilidade...
e que os orixás reluziam adês e adereços em latão...
azés eram traçados a mão...
em que as paredes brancas da casa era cobertas com simples folhas de mariwô...
em que durante a tarde, o fogo de lenha ardia em chamas preparando a comida do Orixá...
em que quando caía a noite e o Candomblé estava prestes a começar, se faziam rezas para o lampião o terreiro iluminar...
Candomblé que tinha poço...e cada Orixá tinha sua casa para morar...
Onde as mulheres exibiam belas baianas de rechiler, com pés no chão, sem pinturas o rosto enfeitar...
Os Homens, com suas calças e camisas brancas de olho quase cegar....
o Candomblé começava, todos cantavam alegremente...quando o Orixá se manisfestava... Era uma gritaria só...todos anciosos esperando os Orixás em corte na sala entrar...
Pegavamos nossas esteiras, no chão à forrar...
ali sentávamos, e quando o Orixá vinha para o salão...mais uma vez! uma gritaria, que meus ouvidos quase ''estourar''...
Quando era tirado o 1° Orin pela Iyálorisá, todos respondiam em voz alta e no calor das palmas, sem o ritmo atravessar...
Quando o Orixá estava prestes a ir embora, lágrimas eu via rolar...
e Quando a '' Macumba'' terminava minha barriga eu ia ''salvar''
Aquela mesa enorme, e tinha o tradicional, as vezes risoto, cabrito, galinha, arroz, farofa e tudo mais para a gula atiçar,
naquele tempo o que reinava mesmo era a água e o guaraná...
acabando tudo, o dia a clarear, deitávamos nossos Orýs, para ele descansar!
Ai que Saudades que me dá! só de escutar meus mais velhos contar...a estória de um Candomblé antigo que praticava nossos antigos.


Texto de OMO OBÁ AIYÊ*