sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Religião tem regras

AUTOR: Babalawo Ifagbaiyin Agboola
www.babalawoifagbaiyin.com

Com o passar do tempo muito se tem escrito sobre a verdadeira função do sacerdote dentro da religião afro-brasileira, mas a impressão que eu tenho é que quase nada foi esclarecido, um Babalawo ou um Babalorisa é confundido com um proprietário da pessoa iniciada, as confusões acontecem ou por parte de quem é iniciado ou por quem inicia. É muito comum ouvir em minhas palestras perguntas sobre a relação de pais e filhos ou irmãos na casa de Orisa.

Algumas pessoas acreditam que se forem iniciadas pelo mesmo sacerdote que iniciou o seu cônjuge a situação caracteriza um incesto, isso nos leva a seguinte pergunta somos católicos ou pertencemos a Religião Yoruba (Èsìn Yorùbá) qual é a nossa verdadeira religião?

Uma grande quantidade de pessoas iniciadas em Orisa ainda seguem preceitos católicos ou orientações espiritas por desconhecer os versos de Ifá, não sabem que dentro desses versos existem as normas de comportamento que orientam os iniciados e o seu comportamento diante de Olodumare.

Eu escuto todo tipo de pergunta, é melhor assim, pior seria se as pessoas não perguntassem, continuassem com suas dúvidas, acredito que devemos dividir informações.

Existe algumas coisas que devem ser esclarecidas, uma pergunta frequente é relativa a preceito, sexo e pecado, no Odu Oworin Ofun, fala que o sacerdote não deve fazer sexo com sua esposa naquele dia, ele está comprometido com os rituais, todos as orientações de comportamento podem ser encontradas nos versos de Ifá, no Odu Osa Otura, fala que devemos sempre falar a verdade, no Odu Ogundakete, diz que não devemos roubar.

Um texto de Ifá muito conhecido do Odu Osetura, fala da importância das mulheres, do respeito que os homens devem manter por suas esposas, filhas e por suas mães, outro texto do Odu Ofun Meji, diz que o iniciado em ifá deve ver Iya Odu e se tornar um Babalawo, já no Odu Ogbe Meji, fica claro que a principal esposa de Orunmila só pode ser cultuada por quem passou por um ritual chamado Ipanadu (cerimonia que o awo se torna um Babalawo, momento que apaga se a luz para ver Odu).

No Odu Ogbe Yonu,fala sobre a relação financeira homem e a família da esposa diz que até o casamento todas as despesas da mulher devem ser mantidas pela família, mas depois do casamento o marido não deve deixar que a mulher passe necessidades, a manutenção da casa é responsabilidade daquele que assumiu a relação diante da família.

Ainda no Odu Ogbe Yonu, vamos encontrar dados referentes ao casamento de um Babalawo, nesse Odu diz que não deve haver a separação e nem o adultério, que as pessoas deveriam antes de assumir uma relação pensar bastante, fala ainda que aquele que escolheu viver com uma única mulher deve respeita-la e protege-la, ainda nesse Odu vamos encontrar uma advertência contra o uso de magia maléfica contra o cônjuge, nesse caso Ifá vai se lançar em sua defesa e não sabemos o que pode acontecer; nesse Odu diz que o Babalawo deve ter uma postura digna e não deve se envolver com outras mulheres, a punição para o sacerdote que não cumprir essa orientação diz Ifá: (que ele nuca vai atingir o sucesso em seu trabalho).

Obs: Com respeito ao numero de esposas o Babalawo deve seguir a orientação do seu odu e buscar uma forma de respeitar a cultura local, podemos tomar como exemplo o odu Oyeku Meji a onde ifá diz:

Que aquele nascido sobre esse signo só pode ter uma esposa, é evidente que também podemos considerar a leis de cada país, no Brasil é crime manter se casado com mais de uma pessoa.

O Odu Ogbeyonu, fala da punição do Babalawo, que desejar a mulher de outro awo, diz Ifá (aquele Babalawo ou iniciado em Ifá que deitar com a mulher de outro awo, não deve ver outro amanhecer).

No Odu Ogbe Meji, a necessidade do comportamento digno é enfatizada, de tal forma que a punição seria o infortúnio, a falta de sucesso e o total esquecimento, o abandono do sacerdote, suas orações não devem ser ouvidas, essa é uma das punições mais temidas, a relação homem Orisa deixa de existir.

No Odu Obara Egutan Encontramos em detalhes, a relação de um Babalawo, com a sua Apetebi, nesse verso de ifá diz (a escolha da esposa de um Babalawo é apontada por Ifá quando ela nasce), existe vários Odus que indicam essa relação, assim como também existe uma identificação bem clara nos versos de Ifá sobre quem deve se tornar um Iniciado e quem deve se tornar um Babalawo, ver Odu: Ogbe Meji, Oturupon Meji, Irete Meji, Iwori Meji etc.

No Odu Oworin Sindin, aparecem algumas indicações sobre a necessidade do homem cumprir o seu destino, assim como no Odu ogbe Ogunda, fala do cuidado com o Ori e a relação do homem com o destino por ele escolhido, tendo como testemunho Orunmila, isso nos remeti a uma reflexão encontrada no Odu Ogbe Meji (nem um homem deve se comprometer com um Orisa antes de conhecer o seu destino) essa afirmação indica claramente que o homem deve conhecer a indicação de Ifá para ter uma orientação sobre a sua vida religiosa, não é o homem que escolhe o Orisa é Ifá quem indica os Orisa que devem ser cultuados.

No Odu Obara Kosun, fala da punição violenta caso o iniciado não respeite o seu sacerdote e vice versa, o respeito deve ser mantido a qualquer custo assim como a segurança da egbe (família) o sacerdote deve usar todos os recursos que possui para proteger a sua família, dele será cobrado à omissão.

Ainda no Odu Obara Kosun, Ifá alerta sobre o uso do Opele, quem pode usar e sobre a remuneração, aquele que não usar o Opele com dignidade jamais vai ver o sucesso, nesse verso ifá deixa claro que um sacerdote não pode mentir e usar um instrumento de consulta em seu beneficio, jamais será aceito qualquer tipo de mentira usando o nome de Ifá.

O Odu Ogbe Alara, fala de Iwa (caráter) a indicação é clara nesse odu, a necessidade de manter uma postura reta, faz parte do dia a dia do iniciado, temos a obrigação diante dos Orisas, de manter um comportamento que honre toda nossa família e nossos antepassados, independente de nossa idade, a juventude não é desculpa para o erro a pouca idade, é característica que indica a inocência e não a má conduta, fica bem clara no verso do Odu Ofun Ose, que diz (é preferível um sacerdote jovem e honesto que um velho sem caráter).

Nos versos de Ifá vamos encontrar inúmeras recomendações de comportamento, inclusive referente à higiene, no Odu Ose Odi, consta uma relação bem clara sobre a necessidade de se manter limpo e com o corpo asseado, ainda nesse Odu diz Ifá (o homem tem responsabilidade com seus filhos até que possam se manter, encontrar uma ocupação e ter sua renda, é responsabilidade dos pais manter os filhos menores).

O Odu Obara Kosun, em seus textos indica que a pessoa que foi iniciada no culto aos Orisas ou no culto a Ifá deve fazer oferendas às divindades e manter os seus assentamentos em ordem, limpos o Ose (limpeza semanal) é responsabilidade do iniciado e não do sacerdote.

Ainda falando do comportamento de um Babalawo, diz Ifá no verso do Odu Ofun Gbadara, as coisas de Ifá não devem ser comercializadas por um Babalawo, (um Babalawo não deve ser um comerciante), nesse mesmo Odu diz (aquele que lhe prestou um favor, lhe deu uma ajuda deve ser recompensado) todo trabalho espiritual tem que ser remunerado, se não for assim como o sacerdote vai poder manter os seus assentamentos e continuar atendendo as necessidades dos que o procuram.

O Odu Ofun Nagbe, fala da prosperidade do Sacerdote fala que aquele que trabalha corretamente terá uma vida tranquila, assim como aquele que possui Ikin nunca lhe faltara o alimento (Odu Idin Ka).

Um verso do Odu Ogunda Ogbe, orienta sobre o dia do Ose semanal, um dia da semana devem ser reservados para cuidar dos orisas, nesse dia os assentamentos dos Orisas devem ser limpos, já no Odu Okanran Obara a orientação é sobre o assentamento de Egungun, diz Ifá (aquele para quem aparece esse Odu deve manter viva a imagem de seus antepassados, essa pessoa deve ser iniciada no culto a Egungun e deve honrar todos de sua família, com um assentamento que deve ser mantido sempre limpo e bem cuidado, é obrigação dessa pessoa escolher um sucessor que ira manter esse assentamento para que esse culto não deixe de existir.

No Odu Iwori Meji, fala sobre fazer magias para quem não tem como se defender, sobre o uso do conhecimento de um sacerdote contra quem não merece tal atitude, diz Ifá (aquele que ataca um inocente a maldade e a destruição voltariam para prejudica-lo).

No Odu Osa Meji, está bem claro que não devemos julgar o nosso semelhante, só Ifá pode saber o futuro de cada pessoa diz Ifá: (um Ori coroado não pode ser reconhecido por um ser humano, só Ifá identifica o Ori que será beneficiado), não devemos menosprezar ninguém.

O Odu Oturupon Ofun, fala sobre o suicídio, não é permitido a ninguém essa pratica só Ifá sabe e pode mudar o dia da morte, ainda nesse Odu diz Ifá: à longevidade não é encantamento, devemos nos afastar de tudo que possa diminuir o tempo de nossa vida, devemos fazer tudo para alcançar a longevidade.

No Odu Ogbeyonu, Ifá é bem claro não devemos ser arrogantes dentro da relação afetiva, devemos buscar o companheirismo como forma de melhorar os relacionamentos.

Em Ika Ogunda, ifá fala sobre a necessidade de orar para obter sorte e prosperidade, o homem deve manter suas orações, como forma de disciplina e humildade, nesse Odu assim como no Odu Ogbe Ogunda, diz: o horário de fazer as orações preferencialmente pela manhã logo que acordamos.

O Odu Osetura, diz não devemos nos exibir, devemos manter uma vida regrada e sem exageros, um homem não deve discriminar uma mulher e uma mulher não discriminar um homem, um velho jamais deve ser discriminado por jovem da mesma forma que um jovem não deve ser discriminado por um mais velho, o respeito deve existir indiferente da idade ou sexo.
No Odu Otura Irete, Ifá diz: (a bondade deve ser cultivada como forma de gratidão) a bondade deve ser praticada, não devemos ser ingratos, só Ifá sabe se não vamos necessitar em um futuro da ajuda de quem nos beneficiou no passado, não devemos desfazer de quem um dia nos ajudou.

O Odu Otura Ofun, deixa bem claro a necessidade de manter os ebós indicados por Ifá, se uma pessoa consulta, toma conhecimento do problema e não fazer os ebós indicados a responsabilidade deixa de ser do sacerdote.

No Odu Òtúrúpon`Otúa, fala sobre a necessidade do sacerdote estudar e ter conhecimento para honrar seus antepassados com sua capacidade, diz Ifá: é responsabilidade do iniciado, assim como do sacerdote o aprendizado, a capacitação daquele que abre as portas para o atendimento é uma responsabilidade assumida diante de Ifá, todo ato praticado dentro da casa de Orisa tem que seguir a orientação dos versos de Ifá; no Odu Iwori Otura, fala sobre a disciplina dos estudos e a educação do iniciado em Ifá deixando bem claro que devemos nos dedicar para obter uma educação adequada. O Odu Irete Ofun, fala do estado de perfeição e o alinhamento com Olodumare se não somos perfeitos devemos buscar a melhor forma de se assemelhar com a perfeição.

O Odu Iwori Ofun, fala do respeito que temos que manter por todas as pessoas, se queremos ser respeitados, devemos respeitar todas as pessoas sempre, a vida é um benefício recebido das mãos de Olodumare cabe a nós tornar digno o viver.

SABEDORIA

Naquele tempo, Orunmila não era mais que um jovem, de excepcional possuía apenas a vontade imensa de saber tudo o que pudesse.

Em suas andanças sobre os países então conhecidos, soube da existência de um grande palácio, onde havia 16 quartos, num dos quais encontrava aprisionada uma belíssima donzela denominada Sabedoria.

Muitos jovens aventureiros, guerreiros poderosos, príncipes e monarcas já haviam sucumbido na tentativa de resgatar a bela jovem.

Determinado a conquistar Sabedoria, Orunmila dirigiu-se ao local onde estava edificado o palácio e no caminho encontrou um mendigo que lhe estendeu a mão pedindo um pouco de comida. Colocando a mão em seu embornal, Orunmila dali tirou um pequeno saco com farinha de inhame, que era tudo que tinha para comer e de uma cabaça um pouco de epo (dendê), misturando tudo e dividindo com o mendigo, comendo uma pequena parte do alimento.

Depois de alimentar-se, o mendigo revelou a Orunmila o seu nome, dizendo que se chamava Esu e como agradecimento ofereceu ao jovem aventureiro um pedaço de marfim entalhado, dizendo:

“Com este marfim denominado Irofa deverás bater em cada uma das 16 portas do palácio, pois só assim elas se abrirão. Do interior de cada quarto ouvirá uma voz que te perguntará ‘quem bate? ’. Você se identificará dizendo que é Ifa, o senhor do Irofa. Pois só assim cada uma revelará o seu segredo.

A primeira porta – Ejiogbe
Representa o conhecimento da vida.
A voz perguntará então: O que está procurando? E você dirá, estando diante da porta do primeiro quarto, que deseja conhecer a vida, a competição entre os homens e que quer conquistá-la em nome de Ejiogbe, o princípio de tudo. A porta então se abrirá e conhecerá os segredos da vida.

A segunda porta – Oyeku Meji
Representa o conhecimento sobre a morte.
No segundo quarto, quando a voz te perguntar o que deseja, depois de ter se identificado como antes, dirá que deseja conhecer Iku, a Morte e que deseja dominá-la. Aprender a dependência das almas com a Morte e a reencarnação por intermédio de Oyeku Meji. Então a porta se abrirá e você conhecerá a Morte, seus hororres e seus mistérios. Se não demonstrar medo em sua presença irá adquirir o domínio absoluto sobre ela.

A terceira porta – Iwori Meji
Representa o conhecimento da vida espiritual com as forças do Orun.
Na terceira porta encontrará um guardião denominado Iwori Meji, o anjo exterminador que, depois de reverenciado, colocará diante dos seus olhos a determinação do criador sobre a Terra, os mistérios da vida espiritual e dos nove espaços do Orun, onde habitam deuses e sombras e todas as classes de espíritos que irá conhecer.

A quarta porta - Odi Meji
Representa o domínio da matéria sobre o espírito.
Na quarta porta você reclamará por conhecer o domínio da matéria sobre o espírito, a lei do Karma e a formação do gênero humano. O guardião desta porta chama-se Odi Meji, a quem deverá demonstrar respeito e submissão. É necessário que não se deixe encantar pelas maravilhas e os prazeres que se descortinarão diante de teus olhos, pois podem te escravizar para sempre, interrompendo sua busca.

A quinta porta - Irosun Meji
Representa o domínio do homem sobre seus semelhantes.
Na quinta porta quando for indagado dirá, diante de Irosun Meji, que procura o acaso da vida. O domínio do homem sobre seus semelhantes através do uso das forças físicas e imposições dos homens. Aprenda, mas não utilize jamais as técnicas reveladas para o mal. Apenas como defesa, para não se tornar vítima delas.

A sexta porta - Owonrin Meji
Representa o equilíbrio que deve existir no Universo.
Na sexta porta será recepcionado por um gigante do sexo feminino que deve ser saudado por Owonrin Meji a quem solicitará ensinamentos relativos à possessão espiritual, à cura dos seres vivos e ao equilíbrio que deve existir no Universo. Compreenderá então o valor da vida e a necessidade da morte, o mistério que envolve a existência das montanhas e das rochas. Ali será tentado pela possibilidade de obter muita riqueza, mulher, filhos e bens incomensuráveis. Resista a estas tentações ou verá ser reduzida a uns poucos dias de luxúria.

A sétima porta - Obara Meji
Representa o poder da realização dos desejos e sonhos do ser humano.
Agora estará diante da sétima porta. O habitante deste quarto chama-se Obara Meji, é velho e se apresenta de aparência bonachona. Poderá te ensinar prestígios da cura, soluções para os problemas mais intrincados e te dará a possibilidade de realizar todos os desejos dos humanos. Tome cuidado, pois o domínio desses conhecimentos podem te conduzir à prática da mentira, à falta de escrúpulos e o desequilíbrio mental.

A oitava porta - Okanran Meji
Representa o poder da palavra do ser humano.
No oitavo quarto deverá solicitar a permissão de Okanran Meji para conhecer o poder da fala humana, que infelizmente é muito mais usada na prática do mal do que para o bem, e o encadeamento das forças. Este guardião te falará em muitas línguas e de sua boca só ouvirá lamúrias. Aprende depressa e depressa foge deste local, onde imperam a falsidade e a traição.

A nona porta - Ogunda Meji
Representa os malefícios da corrupção e da decadência no ser humano.
Diante da nona porta, pedirá permissão ao seu guardião, Ogunda Meji para conhecer a corrupção e a decadência, que podem levar os seres humanos aos mais baixos níveis de existência. Naquele quarto, encontrará os vícios que assolam a humanidade e que a escravizam em correntes inquebráveis. Verá o assassinato, a ganância, a traição, a violência, a covardia e a miséria humana, brincando de mãos dadas com muitos infelizes que se tornam seus servidores.

A décima porta - Osa Meji
Representa o poder do fogo e da influência dos astros no ser humano.
No décimo aposento deverá apresentar reverências a uma poderosa feiticeira, cujo nome é Osa Meji. Ela vai contar o poder que a mulher exerce sobre o homem e o porquê deste poder. Conhecerá seres poderosos que praticam o bem e o mal, denominados Ajès que vão lhe oferecer seus serviços maléficos. Caso aceito fará de você o mais poderoso e o mais odiado ser da face da Terra.

Aprenderá a representação do tempo, a dominar o fogo, a utilizar a influência dos astros sobre o que acontece no mundo. Saberá das relações entre o sol e a Terra e a Terra e a Lua, principalmente a influência da Lua sobre os seres vivos. Cuide para que estes segredos não te transformem em um feiticeiro maldito.

A décima primeira porta - Ika Meji
Representa o mistério da reencarnação e o domínio sobre os espíritos.
Bata agora com o seu Irofa na décima primeira porta e a voz do guardião Ika Meji lhe dirá onde os peixes povoaram os mares, o gigante em forma de serpente te fará estremecer. Saúde-o respeitosamente e solicite dele a permissão para conhecer o mistério que envolve a reencarnação, o domínio sobre os espíritos Abikus que nascem com o destino de uma vida curtíssima. Aprenda a dominar este segredo e desta forma poderá livrar muitas famílias do luto e da dor.

A décima segunda porta - Oturupon Meji
Representa os segredos da criação da Terra.
Esta porta te reserva sustos e surpresas sem fim. Seu guardião se chama Oturupon Meji e é do sexo feminino. Possui forma arredondada, mas se parecendo com uma grande bola de carne quase disforme. Trata-se de um gênio muito poderoso que poderá lhe revelar todos os segredos que envolvem a criação da Terra, além de te ensinar como obter riquezas inimagináveis. Aprenda com ele o segredo da gestação humana e a maneira como evitar abortos e partos prematuros. Depois parta respeitosamente em busca da próxima porta.

A décima terceira porta - Otura Meji
Representa o pleno poder sobre a matéria, a força mágica.
Bata com cuidado e muito respeito, neste quarto reside um gigante chamado Otura Meji, que costuma comunicar-se de forma íntima e constante com a energia da criação. Aprenda então como nasceu à raça humana, o domínio do homem sobre todos os animais e como é possível separar as coisas.

Domine os mistérios de dissociar os átomos, adquirindo assim pleno poder sobre a matéria. Aprenda também a utilizar a força mágica que existe nos sons da fala humana, mas usa esta força terrível com muita sabedoria.

A décima quarta porta - Irete Meji
Representa o poder dos segredos dos espíritos da Terra.
Já diante da décima quarta porta, irá se deparar com Irete Meji, que nada mais é do que o próprio espírito de Ilé, a terra. Faça com que desvende seus mais íntimos segredos, aguarde-o e preste lhe permanente reverência e sacrifício. Saiba como ir e voltar do reino de Iku. Contate por seu intermédio os espíritos da terra, “Onile”, transformando-os em seus aliados. Aprenda com ele o poder da cura.

A décima quinta porta - Ose Meji
Representa os males físicos do ser humano.
Na décima quinta porta será recepcionado por Ose Meji, que irá te ensinar sobre degeneração, decomposição, doenças, perdas e putrefação. Aprenda que é perdendo que se ganha, siga sempre pelo caminho mais modesto.

Aprenda a sanar estes males e saia daí o mais depressa possível para não ser também vitimado por tanta negatividade.

A décima sexta porta - Ofun Meji
Representa a união dos poderes dos outros 15 odus de Ifá.
Finalmente a décima sexta porta, o último dos obstáculos que te separam da sua desejada musa. Aí reside Ofun Meji, o mais velho e terrível dos 16 guardiões, aquele que ressuscita os mortos, saúde-o com temor, dizendo “Epa Imole” só assim poderá aplacar a sua Ira. Contemple-o, mas não o encare, observe que ele não é como os outros que você já conheceu durante a caminhada. É a reunião de todos os demais que nele habitam e que nele se dissipam somente de forma ilusória. Conhecê-lo é conhecer todos os segredos do Universo.

“Se for esta a sua busca, então você encontrou a “Sabedoria”, leve-a consigo até a eternidade.”

Ase, Ase, Ase.

domingo, 1 de setembro de 2013

ÒSÚMARÈ ARAKÁ – A Misteriosa Divindade do Panteão Yorubá



A ORIGEM DO CULTO

Em pleno Século XXI, a origem exata do culto a esta magnífica Divindade, ainda continua na obscuridade. As controvérsias, ocorrem devido a sua semelhança sem igual com Dan Ayido Wedo, um Vodun originário da região Mahi, no antigo Dahomé, atual República Federal do Benim. Alguns religiosos afirmam que se trata de uma Divindade do Panteão Ewe Fon que foi agregada a Religião dos Yorubá. As semelhanças entre o Vodun Dan e Òsúmarè Araká chegam a ser impressionantes, muitos chegam a acreditar que trata-se de uma única Divindade venerada em culturas distintas. Ao que se sabe existia apenas um Templo dedicado à Òsúmarè em Ofia, uma antiga Cidade de Kétou, hoje região fronteiriça entre a Nigéria e a República do Benim. Entretanto, O Corpo Literário de Ifá, menciona que Òsúmarè emanado do próprio Criador Olódùmarè no òrún em Òfún Méjì, realiza seu Isalàiyé no Odù Ìròsùn Méjì, onde este ultimo, apenas relata que esta Divindade veio de um longinquo lugar, afim de fazer uma adivinhação ao Óòni de Ifè, no caso Odùdúwà. Por esta razão, muito acreditam que Olúorógbo, filho de Mòrimi, seja Òsúmarè, por ser uma divindade que ostentava o poder de manipular os ciclos da chuva, explicam então, que a origem do culto de Òsúmarè foi em Ilé Ifè.


A ETIMOLOGIA

O nome Òsúmarè Araká não é de fácil interpretação, para isso deveremos desmembrá-lo com cautela, afim de não alterar seu verdadeiro significado.

Ò – pronome pessoal reto, significa “ele”, no sentido de “aquele”; sú – verbo de ligação, significa “estar escuro ou nublado”, no sentido de “olhar nas nuvens escuras, tornar-se escuro”, aqui as nuvens escuras tem o sentido de “carregadas de água”; ma – advérbio, que significa “deveras, com efeito, muito”, dentro do contexto religioso tem a conotação de “criar a chuva” e rè – que significa “estabilidade da força de realização, o poder de manter a estabilidade do que nasce, cresce, reproduz-se e morre”. O conceito do sufixo marè está perfeitamente identificado com o poder de Olódumarè, pode ser interpretada como: "Aquele que tem autoridade sobre tudo o que há no céu e na terra, O Ser incomparável, Aquele que é absolutamente perfeito, Supremo em qualidades". O vocábulo marè é o significado de Deus dentro da Religião dos Yorubá como força física de realização.

Ara – substantivo, que significa “corpo, membro, tronco” e ká – advérbio, que significa “ em volta de, em círculo”, que tem o sentido de “corpo em forma de círculo” o que justifica uma das representações desta Divindade em ferro forjado “A Serpente mordendo a sua própria cauda, formando assim um círculo fechado”. A título documental, pesquisem a respeito da Serpente Uroboros, que exerce importante papel nas ciências herméticas; ela simboliza a vida universal, a força que pões essa vida em movimento.

A expressão Òsúmarè Araká pode ser interpretada como “Aquele com o corpo em forma de círculo, que possui a qualidade de trazer a chuva”.


OS ATRIBUTOS

Seus atributos não são fáceis de serem definidos, pois são múltiplos. O poder de realização, outorgado por Olódumarè e sustentado através de Òsúmarè pelos ciclos em que se operam cada etapa de transformações inerentes ao ritmo da vida, em seu movimento bipolar de fluxo e refluxo, afim de preservar e garantir a continuidade da existência na Terra. Atribuiu-lhe a função de dar mobilidade a todos os seres da Terra, representando a coluna vertebral, nos seres mais desenvolvidos. Divindade da transformação, do movimento continuo e da harmonia do Universo. Através de seu “corpo circular” envolve a Terra, unindo os hemisférios Norte e Sul, enrolando-se em torna da Terra em formação, possibilitou que a Terra se juntasse. Os mitos relatam que após a Terra ter sido criada, Òsúmarè com seu corpo gigantesco em forma de Erè òjòlá – (Python sebae – Píton africana) percorreu grandes distancias, andanças essas, que traçou sulcos na terra, formando o leito de rios que desembocam no mar. E vales que ele mesmo escavou muito antes do nascimento dos homens. Em sua obra, grandes extensões de terra foram irrigadas e fertilizadas. No plano material, seu papel no mundo dos mortais consiste em garantir a regularidade das forças produtoras de movimento. Preside a todos os movimentos da matéria, mas não se identifica obrigatoriamente com aquilo que é móvel. Representa o máximo poder em um movimento por excelência, que Òsúmarè tem por missão sustentar. As sinuosidades de Òsúmarè em torno da Terra não é imóvel, este gira em torno da Terra. “Desse modo, ele põe em movimento os corpos celestes. Sua natureza é o movimento.

A CHUVA
Òsúmarè ostenta o título de Olóòjo “O Senhor das Chuvas” e Olóomi-òjo “O Senhor das águas da chuva; a Divindade do Frescor. O primeiro àkúnbò – dilúvio, inundação trazido ao mundo por Òsúmarè nasce no Odù Òtùrùkpón Méjì:

Òsúmarè O dé igbó kùn bi òjo !

Òsúmarè chega a floresta e faz barulho de chuva !

Òsúmarè Ilè líbi jin òjo !

Òsúmarè faz a chuva cair na Terra !

juntamente com o ewé tètèrègún (Costus afer – cana-de-macaco):


ewé tètèrègún
òjo gb'omi wá ó
tètèrègún
òjo gb'omi wá ó e jòwó
E ! tètèrègún
chuva traz a água
tètèrègún
chuva traz a água, por favor.
Os mitos relatam que Òsúmarè foi incumbido de retornar a água ao céu, porém, este fenômeno meteorológico que consiste na precipitação de água no estado líquido sobre a superfície da Terra, não depende única e exclusivamente à Òsúmarè e sim em conjunto com sua esposa denominada de Ijòkú – A Serpente da Morte, a Deusa do Arco-Íris das águas doces, à semelhança de seu marido, é simbolizada pela cobra.

Okó Ijòkú dúdu ojú e a fi wo ran !
Esposo de Ijòkú que observa as coisas com seu olho negro !
Seu olho negro contempla as coisas !

Sua esposa tem a tarefa de realizar o fenômeno de evaporação das águas do planeta, e a concentração de chuva nas nuvens. Òsúmarè decide se estas devem ou não atingir o solo. Nem todas as chuvas atingem o solo, algumas evaporam-se enquanto estão ainda a cair, num fenômeno que recebe o nome de virga e acontece principalmente em períodos e locais de ar seco. Sabemos que a chuva tem papel importante no ciclo hidrológico, além de fertilizar a terra, gerando todas as riquezas que ele pode nos proporcionar. A Terra molhada é muito importante na concepção religiosa africana, pois representa a fecundação. Sem isso, não poderia haver evolução e renovação da natureza. Em seus ritos litúrgicos um dos componentes importantes é a água da chuva recolhida enquanto o noviço a ser iniciado e consagrado a esta Divindade estiver nos espaços delimitados do Terreiro. A água é considerada a Dona da Vida, mas como tudo tem seu lado oposto, pode ser considerada também como Dona da Morte, quando as águas do céu, apresentam seu lado maléfico. Muitos religiosos acreditam que esse fator se de ao fato de Ijòkú punir os habitantes da Terra, talvez esto faça jus ao seu nome.

O ARCO ÍRIS

A aliança entre o céu e a Terra foi estabelecida através do arco-íris, onde Òsúmarè revela para o mundo seu arco multicolorido. O arco-íris, também chamado arco-celeste, arco-da-aliança, arco-da-chuva ou arco-da-velha é um fenômeno óptico e metereológico que separa a luz do sol em seu espectro contínuo quando o sol brilha sobre gotas de chuva. O efeito do arco-íris pode ser observado sempre que existir gotas de água no ar e a luz do sol estiver brilhando acima do observador em uma baixa altitude ou ângulo. O mais espetacular arco-íris aparece quando metade do céu ainda está escuro com nuvens de chuva e o observador está em um local com céu claro. Outro local comum para vermos o arco-íris é perto de cachoeiras, o habitar preferido e “onde nasce um dos maiores segredos de Òsúmarè”. O arco-íris é frequentemente associado à uma gigantesca cobra celeste. Quando Òsúmarè e Ijòkú aparecem em forma de arco-íris, “o macho é a parte vermelha, a fêmea, a parte azul. As cores escuras pertencem a ele e as cores claras à sua esposa. Além do arco-íris do sol, Òsúmarè e Ijòkú também mostra suas cores ao redor da lua, em alguns dias do ano. Nessa noite, em que a lua exibe sua aureola colorida, principalmente em dia de Lua Cheia – Òsúpà-akúnyà é o momento propicio para se realizar um dos maiores “preceitos” para Òsúmarè relacionados a vida financeira e bem estar.

O EMBLEMA RITUALÍSTICO

Um de suas principais representações, consiste em uma ferramenta de ferro forjado em formato de um tronco de árvore com folhas, simbolizando a árvore sagrada Akòko (Newbouldia laevis) uma árvore mítica que sustenta e atravessa os nove espaços do òrun.
Òsúmarè a gbe òrun li ara ira !
Òsúmarè permanece no òrun que ele atravessa com seu corpo !
Em algumas linhagens, este tronco representa outra árvore sagrada Ìrókò (Chlorophora excelsa) o que de certa forma não estaria incorreto, pois sabemos que é a arvore cuja a copa bate a porta do òrun.
Neste tronco, encontramos duas serpentes enroladas que simbolizam o casal mítico Òsúmarè – Ijòkú. Tudo “acomodado” em uma grande panela de barro, forrada com areia de rio, devidamente preparada com seus segredos ritualísticos para esta finalidade e outros apetrechos. A areia-de-rio ou areia-de-goma, utilizada em seus rituais, são a representação de suas escamas e de sua pele depositada nos leitos dos rios, em tempos remotos, quando a Serpente rastejava no chão, traçando os cursos d'água.
Esta representação em ferro forjado tem um duplo aspecto, masculino e feminino. No entanto mais do que um par, é uno e possui dupla natureza. Juntos sustentam o mundo enrolados em um espiral em volta da Terra, que a preservam da desintegração. Um não pode viver sem o outro, se enfraquecem, seria o fim do mundo. Tudo que se oferecer à Òsúmarè, deverá ser oferecido em contrapartida à sua esposa Ijòkú. Este é o verdadeiro mistério de se oferecer casal de animais a esta Divindade, o que leva a interpretação errônea de afirmar que Òsúmarè seja andrógino ou como dizem o povo-de-santo “seis meses homem, seis meses mulher”. O mito de transformação deste casal mítico em serpentes e mesmo em arco-íris é muito reputada entre os animistas, mas abominam a metamorfose feminina de Òsúmarè.
Os búzios denominados entre o povo-de-santo de Owó-eyo representam opulência e poder, pois na antiguidade eram usados como dinheiro ou moeda corrente. Estes por sua vez, estão presente em grandes quantidades em seus assentamentos, vestimentas, adornos e utilizados por seus sacerdotes em formas de colares denominados de brajá – nestes colares, o modo de como os cauris são enfiados, evoca as escamas de uma serpente. A quantidade de búzios, significa que esta divindade é portadora de riqueza e fortuna. Os mitos relatam que Òsúmarè enriqueceu manipulando seu oráculo e fazendo adivinhação para as mais importantes figuras históricas do povo Yorubá.

Araká do bò òrun ki lo da dé owó
Òsúmarè O !
Òsúmarè está chegando do òrun coberto de búzios !

Nesta frase de um dos mais conhecidos cânticos desta divindade, enxergamos nele o Deus da Prosperidade.

OFERENDAS E SACRIFÍCIOS
A esta divindade são ofertados: Òbúko (bode), àkúko ati adie (galo e galinha), etu (casal de galinha-de-angola), pépeiye nlá (casal de gansos africano), alábahun (tartaruga d'água), obí (noz-de-cola), orógbó (fruto amargo), epo (azeite-de-dendê), oiyn (mel-de-abelha) e otí-àgbàdo (bebida fermentada de milho).
Em sua culinária ritualística (ilé-ìdáná), seus principais pratos são preparados a base de massa de milho branco (èkò ati àgidí), batata-doce (kúkúndùnkún), inhame-da-costa (isu), milho-de-galinha (àgbàdo), feijão fradinho (éwà ere). Seus temperos básicos são uma mistura de cebola ralada (àlùbósà), camarão triturado (edé) e azeite-de-dendê (epo) . Em alguns de seus pratos somente acompanha o mel-de-abelha (oiyn), enquanto em outros a raiz-de-gengibre (atalè) é adicionada. Um mito relata que “o excremento da serpente, transformava os grãos de milho em búzios”, trata-se de uma metáfora da qual nos revela que “se oferecermos milho à Òsúmarè receberemos em troca riqueza e prosperidade”.
A maior parte de suas folhas sagradas, consistem em: folhas trepadeiras e cipós, denominados no grupo das ewé àfòmon e as folhas rasteiras no grupo das ewé kékere. A cabaça (igbá), sobre tudo as de tamanho menores, são muito utilizadas em seus ritos litúrgicos, principalmente como complementos do obí e orógbó durante a consulta adivinhatória.
Òsúmarè é uma Divindade merecedora de culto, pois representa os antepassados muitos distantes cujos nomes foram esquecidos e sobretudo, em sua tarefa de preservar o mundo, Òsúmarè é considerado um servidor universal. Por si próprio nada faz, mas sem ele nada pode ser feito.

Texto de Baba Guido
http://www.facebook.com/babaguido.egbebiaro

Àwọn Ìyámi Àjẹ́ – Minhas Mães Feiticeiras

Àjẹ́ é como são conhecidas as feiticeiras em território Ioruba (Nigéria), também chamadas de Ẹlẹ́yẹ (Senhora do Pássaro) e “carinhosamente” de Ìyámi (Minha Mãe), maneira apaziguadora de se referir as feiticeiras.

No Brasil tem existindo grande confusão em relação à Ìyámi Òṣòròngà (Divindade Senhora das Feiticeiras, também chamada de Ìyámi Àjẹ́ e Ìyámi Ẹlẹ́yẹ), Ìyámi Ayé (Divindade Terrestre) e principalmente as Àjẹ́ (Feiticeiras), o termo ioruba ÌYÁMI (que literalmente quer dizer MINHA MÃE) é um termo utilizado para referir-se a diversas energias, e é ai onde mora o perigo e resulta nesta enorme confusão encontrada hoje no Brasil, pessoas se declarando Àjẹ́, iniciando-se em Ìyámi e até entrando em transe de algo que desconhecem e inúmeras outras coisas absurdas.

Na Nigéria o culto a Ìyámi Òṣòròngà, consequentemente o culto de Àjẹ́ (feiticeira) e Oṣó (feiticeiro), é secreto e muito restrito a iniciados e as pessoas que são pactuadas nesta energia, e as mesmas não saem declarando isso aos quatro ventos, como ocorre no Brasil. Existindo inclusive, famílias de Ifá na Nigéria que não aconselham a iniciação de pessoas neste culto.

Hoje em dia no Brasil, com a grande disseminação da religião Wicca (religião que respeito bastante), muitas pessoas querem ser bruxas e bruxos e isso acaba percutindo de uma maneira negativa dentro de nossa Religião (Ẹ̀sìn Ìbílẹ̀ Yorùbá), pois, as pessoas acreditam que basta ser iniciado (raridade) ou pactuado no culto a Ìyámi Òṣòròngà e já podem sair por ai se declarando Àjẹ́ = bruxas e Oṣó = bruxos.

Aos incautos, desejo apenas cuidado...

Espiritualmente falando, as Àjẹ́ e Oṣó pertencem ao grupo dos Àjògún, guerreiros que lutam contra o homem e prezam o equilíbrio do Universo, liderados por Èṣù e Ìyámi Òṣòròngà, energias que só devem ser cultuadas por aqueles que possuem equilíbrio, que não é o caso de muitos aqui no Brasil e limites, para que amanhã não acabem tornando-se o alimento destas energias (espíritos).

Essas energias vieram ao mundo pela primeira vez, através do Odù (signo de Ifá) Ọ̀sá méjì (Ọ̀sá Ẹlẹ́yẹ), na cidade nigeriana de Ọ̀tà, Ògún State, Nigéria.

Quando encarnadas, possuem forças espirituais fabulosas, passando a serem respeitadas e muito temidas pela sociedade. Deixando claro que, uma Àjẹ́ de verdade, dificilmente declara-se.

Ìyámi Àjẹ́ são energias que, até mesmo os mais sábios sacerdotes (mẹ̀gùn) ou magos (ọlọ́ògùn) experientes possuem cautela ao manipularem.

Encontramos três tipos de Àjẹ́, assim como Oṣó (o masculino delas).

Àjẹ́ funfun, feiticeiras ligadas ao àṣẹ funfun (branco), são as menos perigosas, mais “sensatas” e proporcionam proteção aos seus, mas deixo claro que, também MATAM, mesmo que seja para proteger.

Àjẹ́ pupa, feiticeiras ligadas ao àṣẹ pupa (vermelho), completamente letais, capazes de causarem doenças, epidemias e grande derramamento de sangue, até a uma comunidade ou família inteira, matam de maneira muito dolorosa.

Àjẹ́ dúdú, feiticeiras ligadas ao àṣẹ dúdú (preto), as mais TEMIDAS, trabalham na madrugada e levam a morte certeira, aos incautos, mais uma vez, CUIDADO...

Quando encarnadas essas forças não se prendem a laços emocionais com ninguém, nem mesmo aos próprios filhos ou entes queridos. Participam de sociedades secretas, sabem transformar seus espíritos em pássaros e vão até a casa de seus inimigos ou de inimigos dos outros promoverem males e se “alimentarem”.

A todos aqueles que gostam de manipular a energia de Ìyámi Àjẹ́ (Ìyámi Òṣòròngà) e de seu séquito = àwọn àjẹ́ (feiticeiras), como se fossem brincadeira de criança, simplesmente para mostrar poder e gerar temor nos outros, cuidado...

Elas são completamente insensíveis e dolorosas...


Apáki ní yéyè’ sòròngà
Ìyá mó ki ó má màà pani
Ìyá mó ki ó má màà sorò
Bá a bá dé siwaju wà ni, bò mi a ò
Ìyá dó tòke igi
Mo omo re wà
Àsási sìpe

Minha mãe senhora dos pássaros, possuidora de asas magnificas
Eu a saúdo, minha mãe, não me mate
Eu a saúdo, minha mãe não me causes perturbações
Se você vem perto de nós, oh, proteja-nos!
Minha mãe que pousa no alto da árvore
Eu sou seu filho
Proteja-me!’

Por Hérick Lechinski (Ọlọ́òrìṣà Ejòtọlà)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

EGBE ORUN
Por:Bàbálórìsà Adesiná Síkírù Sàlámì

Episódios de aborto e morte prematura de crianças, jovens e adultos podem ser compreendidos como resultantes da ação dos Àbíkú, também chamados Emèré, espíritos pertencentes à Egbé-Àbíkú (Sociedade Abiku). A palavra àbíkú é constituída de a, bí, (ó) ku, que ignifica tanto nascido para morrer quanto o parimos e ele morreu: designa crianças e jovens que morrem antes de atingir a idade adulta e adultos que morrem antes dos pais. Assim, há duas qualidades de abiku: os àbíkú-omódé, que morrem ainda crianças, e os àbíkú-àgbà, que morrem jovens ou adultos. Tais indivíduos estabelecem com a Sociedade Abiku o ójó orí, pacto de retornarem ao orun ao ser atingida determinada idade. Quando uma mulher sofre sucessivas perdas de filhos recém-nascidos, ainda pequenos, jovens ou mesmo adultos, considera-se que esteja sob a ação de um abiku, espírito que nasce múltiplas vezes através de um mesmo corpo feminino por determinação do destino dessa mulher, por obra de magia ou por circunstâncias de acaso, como a aquisição inadvertida de um abiku por uma grávida que não tenha tomado os devidos cuidados contra isso. Quando uma mulher perde filhos assim, suspeita-se que se trate da ação de àbíkú-omodé; e os episódios de perda de filhos serão interrompidos somente se tomadas as necessárias providências para romper o vínculo desses seres espirituais com a comunidade à qual pertencem no orun. Quanto aos àbíkú-àgbà, o pacto por eles estabelecido com a sociedade determina que o retorno ao orun ocorra em algum momento muito significativo e importante da vida, que pode ser crítico ou de sucesso, como em uma data próxima à formatura, ao casamento, ao nascimento de um filho desejado ou a uma conquista social notável.

Egbé Aráagbó é a comunidade espiritual à qual pertencem os abikus: é constituída pela Egbé Aiyé (Sociedade de amigos do mundo visível, Amigos do mundo visível) e pela Egbé Òrun (Sociedade de amigos do mundo invisível ou Amigos Espirituais) Estando esses dois mundos entrelaçados e intimamente relacionados um ao outro, ambos exercem mútua influência entre si: pode-se presumir que, para que uma pessoa possa viver feliz no aiye, é preciso que esteja em harmonia com seus amigos espirituais no orun.

A solução básica do problema de quem é abiku implica em libertá-lo da sociedade à qual pertence. De fato, implica em tornar cada abiku indesejável ao seu grupo de pertença original no mundo espiritual, de modo que não queiram mais conservá-lo naquela sociedade. Sendo os abikus poderosos, é preciso muito conhecimento por parte dos sacerdotes que se propõem a lidar com eles. Alguns recursos para evitar a morte de um filho abiku e para retirar seu espírito da sociedade à qual pertence podem ser utilizados. Através de rituais é estabelecido um jogo de forças entre Egbé Aragbô e Egbé Abiku: forças de retenção do ser no aiye e forças de resgate deste mesmo ser no orun. Cultos e oferendas são realizados tanto para uns quanto para outros: para esta desistir de retomar seus membros e para aquela protegê-los de serem reconduzidos à companhia de seus pares no orun. Egbé Aragbô atua com Exu pela necessidade de manter o equilíbrio entre o aiye e o orun; age com o auxilio também de Oxum, pela influência dela sobre a fertilidade.

Egbé significa Sociedade: designa a Sociedade dos Espíritos Amigos e se refere, simultaneamente, a um orixá e a uma irmandade ou corporação de seres espirituais: trata-se de Èré igbó ou Aráagbó, que significa Habitante da floresta ou Habitante do além. Este orixá protege contra a morte prematura, acalma o sofrimento material e espiritual e orienta o ori do abiku e de seus devotos a seguir o caminho certo. Atrai progresso econômico e desenvolvimento espiritual, harmonizando esses dois aspectos da existência. Proporciona também os sentimentos de paz, tranquilidade, serenidade e confiança, trazendo a fertilidade em todos os aspectos da vida. Atrai condições para conquistas, domina recursos para promover cura e bem-estar, interfere no destino humano e remove obstáculos da vida: transforma lágrimas em sorrisos. Egbé Aráagbó é venerado para que se possa receber sua proteção contra seres visíveis e invisíveis. As pessoas costumam referir-se a ele dizendo Egbé mi, minha Sociedade, meus Companheiros. Há uma relação importante entre Ibeji e Egbé, pois Ibeji liga-se à natureza, de modo geral, e à floresta, morada de Egbé, de modo particular. Para cultuar um é preciso cultuar o outro.